domingo, 19 de fevereiro de 2012

Anseios da sociedade

Lindemberg Alves: o limite entre a Justiça 
e a vingança
Assisti ontem, na Globo, a entrevista da juíza Milena Dias sobre a sentença que proferiu ao fim do julgamento de Lindemberg Alves (veja a matéria aqui). Me chamou a atenção o nervosismo da magistrada, possivelmente um indicativo da pouca intimidade que tem com eventos de elevada tensão pública que sempre exigem de seus protagonistas a serenidade que só mesmo a experiência é capaz de permitir, às vezes nem isso. No caso da juíza Milena, com apenas 38 anos de idade e acossada como foi pela destemperança da advogada de defesa que recomendou, com muito desrepeito, que voltasse para a escola, talvez não pudesse ser mesmo diferente.

Mas lá pelas tantas, no entanto, a juíza afirma que a dimensão da pena "atendeu aos anseios da sociedade". Com todo o respeito, a mim parece que midiatizado como esse caso foi, desde os trágicos acontecimentos que marcaram o sequestro de Eloá até o resultado final do julgamento de Lindemberg, ninguém está em condições de estabelecer qualquer relação entre a Justiça e os tais "anseios da sociedade". Na verdade, os códigos penais foram feitos justamente para  evitar que "anseios" se transformem em vingança irracional, como boa parte da turba que se acotovelava na porta do tribunal em Santo André queria. Só para que se tenha ideia da dimensão do problema: Hitler também representava os anseios da sociedade alemã nos anos 30, e foi o que se viu... 

Essa ponderação nada tem a ver com qualquer relativização do crime cometido por Lindemberg Alves, mas serve para lembrar, penso eu, que sociedades organizadas com base no Direito pleno dos cidadãos têm que ficar vacinadas contra o espírito do linchamento - que é a marca da irracionalidade e da intolerância. 

Uma parcela significativa da mídia brasileira deposita na exasperação do público a lógica da audiência fácil, como é possível perceber nesses programas que passam o dia martelando em coberturas que substituem a informação pelo sensacionalismo. Esse é o joio que precisa ser separado em cada episódio que toca nossas emoções mais primitivas, e os juízes têm toda a responsabilidade na distinção entre uma coisa e outra. Ou fazem isso, ou o que prevalece é a Lei de Talião: "a reciprocidade do crime com a pena", a animalização da Justiça, olho por olho...
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* Leia também o artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn, Revisitando os dias de cão (Observatório de Imprensa).

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