sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Efeito Anhanguera mostra crise da Universidade no Brasil

Por trás da pirotecnia financeira das universidades
  privadas, anemia e mediocridade acadêmica
Tenho chamado de "efeito Anhanguera" os dados negativos sobre o ensino superior no Brasil, e acho que não me engano: a holding que comprou a Uniban no final de 2011, e cuja relação com o ensino e a pesquisa é quase só financeira, tende a espalhar suas práticas  por todo o sistema, eventualmente levando ao colapso a capacidade do Estado de regular a ação dos interesses privados na Universidade, tal é a voracidade com que seus proprietários querem abocanhar o mercado de estudantes. Enquanto isso, um atrás do outro com ar de tolos, os ministros da Educação que se sucedem não se dão conta de que o ambiente que essas práticas concentracionárias criam é o da desestruturação - do trabalho dos professores à qualidade dos cursos.

Pois o artigo publicado por Carlos Henrique de Brito Cruz nesta semana na Folha (leia aqui), joga um pouco mais de luz sobre o problema. Segundo o ex-reitor da Unicamp e ex-presidente da Fapesp, a julgar pelos números registrados nos últimos anos, tudo indica que o sistema universitário nacional aproxima-se  da estagnação tal é a redução do número de diplomados que apresenta: em 2010 formaram-se 24 mil estudantes a menos que em 2004; e embora o declínio seja menos acentuado nas instituições privadas, também elas registram uma redução nos seus índices de expansão: 4,5% ao ano desde 2005 contra 13% ao ano entre 1995 e 2005.

Para Brito Cruz, os efeitos dessa redução têm consequências que se espalham por todos os lados - já que representam não só o esgotamento da demanda de novos alunos (cujos motivos para desistirem do diploma universitário vão desde o desinteresse pelos cursos oferecidos até as dificudades econômicas, penso eu) mas também a insuficiência do ensino médio, a redução dos estudantes de pós-graduação e a escassez de quadros que sustentem os desafios do desenvolvimento nacional - no âmbito da economia e da técnica.

As constatações de Brito Cruz permitem dois tipos de reflexão. A primeira: qual a capacidade que sistema privado de ensino superior brasileiro teria de sustentar os investimentos que fez nos últimos anos, inclusive com a associação de algumas empresas a grupos estrangeiros, diante de um cenário de estagnação do mercado de estudantes? A resposta não é simples, mas alguns indicativos permitem constatar que a luz amarela já acendeu para diversas dessas instituições.

Não é apenas a criação de novos cursos que deixou de ser feita, mas a expansão física das escolas existentes em direção a outras cidades do Estado de São Paulo e a outras regiões do país praticamente desapareceu, fato que pode significar uma espécie de movimento de capital para dentro do próprio núcleo das empresas já existentes.

Nesse caso, a soberania nacional e os interesses públicos envolvidos na Universidade estariam fortemente comprometidos em razão da força política inerente ao poder econômico dos conglomerados remanescentes da fase crítica (esta que agora estamos vivendo). Guardadas as proporções, o sistema universitário poderia se assemelhar ao sistema bancário - um reduzidíssimo número deles impõe a política financeira praticada pelo Estado.

A outra reflexão remete a questões estruturais. Nos anos 70, quando explicou a natureza do modelo econômico adotado pela ditadura militar, Celso Furtado apontava para uma peculiaridade de suas características: a concentração da renda numa sociedade de elevada densidade populacional, fato que assegurava a existência de um mercado consumidor capaz de dar sustentação ao crescimento com base em estratos minoritários da população. O modelo, dessa forma, reproduzia-se mesmo criando à sua volta um elevado nível de disparidade social.

Também aqui, guardadas as proporções, é possível especular sobre a analogia com um sistema universitário de elevada concentração de capital frente a um mercado consumidor de educação superior que não se expande: sua sobrevivência baseada na liquidação das práticas laboratoriais e pedagógicas e na precarização do trabalho docente voltadas essas condições para uma clientela que deixa o ensino médio apenas preparada para ofícios de natureza operacional e de pouca densidade reflexiva, mais ou menos como já vem ocorrendo...

São ponderações que o quadro descrito por Brito Cruz permitem.
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