quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Por um triz...

Apolo e Dafne, de Bernini
Foi em meados dos anos 70 que a FAU da USP exibiu, pela 1a vez em São Paulo, a série Civilização, produzida pela BBC e dirigida pelo historiador britânico Kenneth Clark. O trabalho constituia-se num conjunto de 13 documentários sobre a História da Arte que, algum tempo depois, foi exibido pela TV Cultura e editado pela Martins Fontes. As sessões que se realizavam semanalmente na FAU reuniam uma variedade muito grande de interessados em questões culturais, em especial nós, estudantes comunistas do PCB, querendo compreender a dinâmica das ideias numa sociedade de classes, e a interpretação da arte feita por Clark era, nesse sentido, um prato cheio. 

Logo no primeiro filme, que dá título a este post, o historiador apresentava sua tese: o fato que salvou a cultura ocidental da barbárie dos povos germânicos, ao final do Império Romano, foi o cristianismo católico, cujas manifestações de espiritualidade institucionalizada na Igreja - e, depois, herdadas pelo protestantismo - favoreceram o desenvolvimento da arte tal como a conhecemos depois da Idade Média. Em apoio às suas afirmações, Clark exibia a delicadeza e a afetação das formas do Renascimento e do Barroco, na pintura e na escultura; sua suavidade e leveza, além do forte apelo à introspecção da música de Bach. Por um triz, não fossem essas forças culturais e toda a arte teria sucumbido ao embrutecimento estético dos povos que ocuparam a Europa ocidental.

Essa interpretação culturalista da História, evidentemente precisa ser vista com cautela porque são muito complexas as forças que atuam nas várias formações sociais e, em especial, na sua produção estética, mas pessoalmente - depois de ter assistido à série em outras oportunidades e de ter participado das discussões que ela provocava - nunca mais deixei de levar em conta as razões de Clark em todos os cursos de História ministrei. Penso que há uma forte razoabilidade na relação que pode ser estabelecida entre o refinamento das formas de Bernini e de outros artistas, um certo exagero que buscava "completar o que a natureza deixara incompleto" (Wolgang Iser), e o apelo à harmonia entre um estado de existência anímico e o mundo, neste caso pelo caminho de uma escultura.

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