sexta-feira, 9 de março de 2012

Modernização inconsistente


Gráfico da Folha mostra a fragilidade do crescimento econômico brasileiro

Tenho dito aos meus alunos que o longo processo de modernização da economia brasileira é repleto de defeitos estruturais, como parece que ocorre com todas as sociedades que se industrializaram na periferia do sistema capitalista. Também aqui - e talvez como uma forte peculiaridade nossa - o crescimento do setor manufatureiro se deu com a manutenção intocada do setor agrário-exportador, da dependência de tecnologia e de capital e também com a manutenção dos desníveis de renda que estrangularam o mercado consumidor interno. Nessa análise, sempre incluí a inexistência de uma burguesia suficientemente disposta a assumir o projeto da industrialização a partir de uma postura moderna e ousada, preferindo ficar na franja do poder político e na expectativa dos investimentos e apoio financeiro do Estado.

Pois eu não imaginava que esse quadro ainda mantivesse suas principais características de forma tão integral e aguda como demonstra a matéria que a Folha de S. Paulo publica em sua edição de hoje (leia aqui). Pelos números expostos no gráfico acima, desde o início dos anos 90, a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) do país, mostra um comportamento sinuoso mas, em perspectiva, persistentemente em declínio, de tal forma que a comparação feita pelo jornal assusta: voltamos aos patamares dos anos 50. Não sei se esses dados comparativos estão atualizados de acordo com variáveis populacionais e monetárias, mas se estiverem - o que melhora o padrão de análise - a conclusão é gravíssima de qualquer forma: estamos no mesmo estágio da década posterior ao fim da II Guerra, um dos momentos mais favoráveis para o Brasil e que permitiu a arrancada do período desenvolvimentista de Juscelino.

A começar daí, a conjuntura do presente é exatamente o oposto: a liquidez de capital que tem beneficiado o Brasil com o ingresso de recursos é causada por uma verdadeira fuga da crise que se verifica nos Estados Unidos e na Europa, fato que mostra tratar-se não de um impulso inovador no setor industrial e produtivo, mas especulativo e de curto prazo. Portanto, uma das razões que explicam o boom econômico-financeiro vivido pelo país em consequência da atração que a nossa estabilidade exerce sobre os investidores é certamente o resultado de uma bolha especulativa que pode nos deixar na mão a qualquer momento. Significa dizer que nem mesmo os fatores positivos que dão sustentação aos bons resultados que a economia brasileira tem apresentado são confiáveis (o outro fator, o elevado preço das commodities brasileiras no mercado externo, é tão frágil quanto o primeiro).

Penso que as causas do retrocesso evidenciado no declínio da participação da indústria na riqueza nacional são muito complexas e dificilmente tenho condições de esgotar toda a análise que elas merecem num post destas dimensões, mas me parece que essas causas devem ser procuradas na virada do modelo associado às práticas financeiras e mercantis do neoliberalismo implementadas dos meados dos anos 90 até os dias de hoje - virada que consolidou os mecanismos de transferência de renda para o grande capital internacional (leia as matérias sugeridas abaixo sobre a sangria financeira que as multinacionais promovem sistematicamente no país). Acredito que uma linha paralela que permitisse visualizar, no tempo, a intensidade da ação desses mecanismos e o declínio do peso da indústria no PIB, demonstraria a ascensão de uma (a da transferência de renda) e o declínio da outra (o retraimento da indústria).

Esse resultado, na hipótese de que a causa apontada acima possa ser comprovada, não deixa bem nenhum dos governos desde a eleição de Collor: todos participaram do aprofundamento dessa deformação estrutural do crescimento econômico recente. Empresários de todos os setores, a tecnocracia estatal, a inteligência acadêmica na área da economia, todos esses segmentos, de alguma forma, legitimaram o modelo e enalteceram suas virtudes - em nome da lucratividade para uns e em nome da governabilidade para outros. O resultado é o que aparece agora das cifras divulgadas pelo IBGE: o país correu contra o tempo na obsessão pelo crescimento econômico, mas parece que correu na direção errada.

Recomendo ainda a leituras das matérias publicadas no Estadão sobre a estagnação industrial e sobre a descapitalização que os investimentos estrangeiros promovem no país.

Indústria parou de crescer há 3 anos ( 11/09/2011).

Especular é mais lucrativo que investir (16/11/2011).

Multis aceleram remessa de lucros ( 24/11/2011).
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Um comentário:

Marcos Paulo da Silva disse...

Está aí mais uma prova da tal "modernidade inconclusa" - ou anômala - que Souza Martins tanto nos fala.