quarta-feira, 28 de março de 2012

Renda, consumo e emoções fortes

Disparidades da renda ameaçam o crescimento
Apresentei aos meus alunos de Brasil Contemporâneo a tabela acima. Trata-se de um infográfico parcial publicado na edição 2210 da revista IstoÉ no âmbito de uma extensa matéria sobre o assunto da estação: o novo perfil da renda da classe B. Embora o tratamento que a revista dá às informações que reuniu seja muito precário (a sensação é a de que faltaram ao repórter instrumentos de análise da variedade de números que reuniu) é possível - observando-se exclusivamente o gráfico - perceber uma contradição perigosa nos registros que associam população, renda e consumo.

Sugiro que o leitor deste blog observe o paradoxo nada sutil decorrente da comparação das três colunas. No caso da classe C, ela representa mais da metade do contingente populacional (52,4%), mas detém apenas 26,9% da massa salarial. Apesar disso, é o grupo que tem a maior participação no total do consumo (38,7%). O registro é inversamente proporcional ao que se observa nas classes A e B, nas quais a relação consumo/renda é mais equilibrada.

Qual é o problema? O problema é o da imaginação fértil: a explosão do consumo de todas as bugigangas que têm feito a alegria do nosso crescimento econômico alicerçada majoritariamente num segmento de baixa remuneração; um consumo que reproduz e acentua a disparidade social e que, dada a estrutura do perfil da distribuição da riqueza, pode se dar em cima de uma bolha de endividamento... Deus me livre se isso for verdade...
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E para os que gostam de emoções fortes, sugiro a leitura dessas duas matérias publicadas no Estadão indicadas abaixo.

A primeira fala da selvageria que os bancos praticam com as taxas de juros, fato que vai na contra-mão do esforço do governo para manter o consumo aquecido e, em razão disso, dar sustentação ao crescimento...

As outras justificam o receio que as tabelas acima evidenciam: o crescimento da inadimplência... alimentada pela lógica cultural do modelo econômico brasileiro

* Mesmo com Selic em queda, custo do crédito sobre pelo 2o. mês seguido

* Inadimplência de veículos dobra e bancos já apertam o crédito.

* Dívida das famílias pode limitar o crédito e frear o crescimento do PIB

* Inadimplência 1 e 2

* O coração do modelo cultural da economia brasileira: o carro
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Um comentário:

Augusto Reis disse...

Infelizmente existem indicadores neste sentido. Podemos levantar a hipótese de que grande parte desta diferença entre o poder aquisitivo e a participação de consumo no mercado, associada à classe C, conforme nos mostra o gráfico, seja resultante, principalmente, dos programas de incentivo criados pelo governo (Bolsa família; Minha casa, minha vida, etc).

Comparando os dois exemplos:

O primeiro (Bolsa família) gera dividendos ao governo, ou seja, é o nosso dinheiro (Arrecadado através de impostos) que está financiando o programa. Existem outras discussões em relação à pertinência ou não do programa, mas façamos apenas essa análise econômica imediata, à título de comparação.

No outro caso (Minha casa, minha vida), também se trata de um programa que gera dividendos ao governo através de subsídios. No entanto, quem está adquirindo imóveis através deste programa, está investindo pouco, devido à facilidade de crédito, à baixa taxa de juros e aos subsídios, e assumindo dívidas de mais de 30 anos de extensão (Valor que não possuía para investir, podemos considerar como componente desta diferença detectada entre capital e investimento).

Quem investiu em imóveis quatro ou cinco anos atrás, ganhou na loteria nos últimos dois anos. Imóveis valorizados em até 400%, 500%. Apartamentos adquiridos na planta que, ao serem entregues, já estão valorizados em quase 50%. Estamos ensaiando um "remake" da bolha imobiliária norte-americana que resultou na crise financeira do final de 2008?

Concordo contigo, Deus nos livre se isso for verdade... Que esta bolha não venha a estourar.