quinta-feira, 5 de abril de 2012

Situação difícil é a nossa...

Prêmio Pulitzer de fotografia de 1986
(Carol Guzy e Michel duCille, The Miami Herald)
Só agora é que consegui ler um registro importante que diz muito sobre o jornalismo que produzimos e também sobre suas perspectivas na atualidade. Trata-se da entrevista que Roberto Civita deu ao caderno Eu&Fim de Semana do jornal Valor Econômico. Saudável a iniciativa de uma empresa jornalística colocar nas suas páginas o proprietário de uma outra, abrir para o seu público os projetos do concorrente e eventualmente suas visões distintas do mesmo campo de atuação.

Infelizmente, no entanto,  não foi saudável a constatação de que a entrevista traduziu-se num terreno absolutamente vazio de ideias, de projetos e de instigação, profissional ou empresarial, a respeito dos rumos do jornalismo na sociedade contemporânea em geral e no Brasil em particular. Ou porque o repórter não teve qualquer sagacidade em tirar do entrevistado aquilo que, na condição que ocupa, poderia oferecer ao público, pelo menos algum indicativo de sofisticação intelectual; ou porque o entrevistado não tem muito a dizer, o fato concreto é que ninguém imagina que está diante de um dos principais publishers da imprensa nacional e internacional.

Não é à toa que o título da entrevista já é, por si só, um gesto de arrogância: "Não preciso agradar a todo mundo", diz Civita - como se alguém estivesse exigindo isso dele ou da editora que dirige. Personalista, carregado de vaidade e de autoritarismo, o dono da Abril envereda por uma saraivada de frases feitas, todas elas marcadas por lugares comuns cansativos e pobres. Culinária, justificativas ingênuas sobre a editorialização do noticiário de Veja, impulsos adolescentes que o levaram para o jornalismo etc... tudo isso num espaço nobre e numa rara oportunidade para que um império editorial pudesse registrar que seu titular tem projeto, qualquer projeto articulado no território próprio do jornalismo e no território da cultura. Seria um alívio para os leitores e para toda a sociedade.

A Editora Abril, no entanto, parece que não anda bem das pernas e isso pode estar biruteando seus estrategistas editoriais. As informações sobre as dificuldades que atravessa foram dadas por Gustavo Gindre em matéria transcrita no Observatório da Imprensa, fato que pode recolocar as condições de produção do jornalismo brasileiro que, perdida mais uma sustentação empresarial de vulto, vai ter que encontrar inventividade para superar os desafios que o afastam de suas funções sociais e culturais. Ou pode ser que não... Situação difícil essa nossa carência de referências no terreno do jornalismo tradicional...
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