segunda-feira, 7 de maio de 2012

Hollande

O presidente que sai...
Deu a lógica na eleição francesa. Os socialistas não deixaram que os conservadores aliados de Sarkozy, e ele próprio, saboreassem o gostinho de um 2o. mandato. Essa simples constatação já me parece motivo suficiente para reflexão porque é difícil imaginar que um governante que busca a reeleição não consiga - em função dos instrumentos que tem nas mãos - impor seu nome às correntes da oposição. É raro que isso aconteça.

Mas aconteceu na França, e se houvesse eleições na Espanha, em Portugal, na Inglaterra e em outros países onde a crise econômica levou os conservadores ao governo, todos seriam derrotados. É o eleitorado manifestando sua volatilidade? Acho que não. Acho que é o eleitorado se dando conta dos efeitos anti-sociais das medidas de austeridade prometidas em todos os países: restrições a direitos históricos dos europeus, redução do papel do Estado, controles orçamentários... tudo isso para tranquilizar os bancos, o FMI, os tais "investidores", estabilizar o euro e radicalizar as políticas neoliberais responsáveis pela crise que se prolonga desde 2008 (na Espanha, por exemplo e segundo o El País, o 1o. ministro Rajoy já se disse disposto a "ajudar" os bancos com dinheiro público, numa clara demonstração de insanidade política diante da crescente oposição ao seu governo: aqui)

Fico satisfeito e me sinto contemplado com análises que levam em conta os efeitos políticos das tensões decorrentes desse modelo. No pleno funcionamento do regime democrático, é difícil imaginar que a opinião pública permaneça indefinidamente anestesiada pela midiatização das propostas de austeridade, mesmo quando vêm acompanhadas dessa espetacularização das personalidades que polarizam o quadro político (e, eventulamente, suas belas esposas, como foi o caso de Carla Bruni durante todo o reinado de Sarkozy). A mídia acredita que é possível cravar, ao lado da perda de direitos, o deslumbramento imaginário com um reino de Camelot. É preciso perguntar ao trabalhador o que ele acha disso. Quando pode responder, na hora do voto, o resultado é o que se viu na França.

Paul Krugman, um prêmio Nobel de Economia insuspeito, disse recentemente que a doutrina da austeridade fiscal e do corte de gastos para combater a depressão é um "conto de fadas" que morreu. Em lugar nenhum deu certo, menos ainda quando veio associada a liquidação de direitos. A conclusão? Penso que o capitalismo tem que buscar um outro caminho, eventualmente regulando pra valer o arbítrio do capital.

A propósito, sugiro a leitura dos textos disponíveis aqui para que se tenha uma ideia da amplitude desse debate, e o artigo Europa pode enfrentar uma tempestade política, de Paul Mason, editor de Economia da BBC.

E mais um pouco:  Luxo e acúmulo de poder marcaram governo de Sarkozy (BBC).
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Um comentário:

Renan Vieira disse...

De acordo com tudo que disse. Mais uma perfeita análise.