domingo, 17 de junho de 2012

Grécia: Vivemos à luz de uma estrela morta

Exuberância do passado não foi suficiente para consolidar uma
sociedade justa e democrática

Séculos de decadência, falência do Estado, perda do sentido moral. São esses alguns dos sintomas da crise grega apontados, com indisfarçável tristeza, pelo dramaturgo Dimitris Dimitriádis em entrevista concedida a Fabienne Darge, do Le Monde, e que divulgo abaixo via Presseurop.

No final dos trechos da matéria, sugiro algumas leituras que podem nos ajudar a entender toda a dimensão econômica e política que a tragédia da globalização financeira criou. 

Em 1978, escreveu o texto "Morro como país". Fala-se nele no desaparecimento de uma nação que acaba sem nome nem história. O que sente que está a acontecer na Grécia?
Dimitris Dimitriadis: É obviamente uma sensação muito estranha. Escrevi o “Morro...” há trinta e cinco anos: o país acabava de sair da ditadura dos coronéis, era um período cheio de esperança, de promessas e de prosperidade. Foi uma situação pessoal de absoluta solidão que me levou a escrever esse texto, que assumiu a forma de uma parábola: falo de um país que morre porque não aceita o seu próprio fim, nem consegue aceitar o outro. Um país que se sente sitiado durante 1000 anos, que não aceita aquilo a que chama o inimigo, que não vê que o "inimigo" é a sua perspetiva de futuro. O que caracteriza a Grécia é uma espécie de estagnação, de imobilismo mental: fica-se agarrado aos hábitos, tanto psicológicos como sociais; vive-se com base numa tradição morta, que ninguém sonha em renovar.
É um problema gravíssimo: este país que é a Grécia, histórico por excelência, está preso no mecanismo da história. E assim chegámos a um beco sem saída: tudo de que se fala, essa grande herança grega de que nos valemos, petrificou-se sob a forma de ideias feitas, estereótipos. Isto não é novo: há muito tempo que, na Grécia, vivemos à luz de uma estrela morta. O que senti há 35 anos tornou-se hoje mais agudo: a "crise" não será resolvida sem uma verdadeira tomada de consciência histórica, que passa pelo reconhecimento de que algo morreu, para que possa ter lugar um novo nascimento. Como no verso de T. S. Eliot: "No meu fim está o meu começo." Falta-nos ainda aceitar o fim.
A crise é, então, principalmente histórica, não política nem económica?
Sim, embora eu não negue as dimensões económica e política. Deve ser repetido incessantemente que o sistema político em que vivemos, na Grécia, que data da ocupação otomana (e tem, portanto, vários séculos), é totalmente clientelista. Os grandes terratenentes do passado foram substituídos por partidos políticos, mas têm a mesma relação com as pessoas. O Estado pertence ao partido, que o utiliza e explora os recursos públicos para manter o seu sistema de clientela.

Diz "o" partido, mas tem havido alternâncias políticas na Grécia, desde a queda da ditadura, em 1974...

Sim, claro, após a queda dos coronéis apareceu a Nova Democracia de Constantin Karamanlis, mas, a partir dos anos 1970, foi realmente o partido chamado socialista de Andreas Papandreu, o Pasok, que governou a Grécia. Esses dois grandes partidos, um de direita e outro de esquerda, funcionaram da mesma maneira; mas temos de reconhecer que o Pasok levou o sistema de clientelismo ao auge. Operou uma verdadeira usurpação dos recursos estatais, incluindo todo o dinheiro que veio da União Europeia. O dinheiro do Estado tornou-se tesouro do partido, que permitiu a criação de muitos postos de trabalho fictícios, por exemplo. E isso persiste e explica em parte porque chegámos à presente catástrofe económica: o sistema está esgotado, porque não há mais recursos, e tão profundamente podre, que estamos num impasse. É tudo isso que me faz dizer que o país já está morto, e que o deve aceitar: deitar tudo fora, para começar do princípio. A isto chama-se consciência histórica. 

Apelar a um profundo salto moral. Mas será isso compreensível num contexto em que as pessoas sofrem cada vez mais, física e mentalmente? Tentar manter um padrão mínimo de vida não vai ter precedência sobre outras considerações?

É verdade que a vida quotidiana na Grécia se tornou quase insuportável. Mas às vezes, eu que vivo nesse quotidiano e sofro como toda a gente, acho que os europeus têm razões para quererem castigar o país. Às vezes penso que não espero que tenham pena de nós, porque, há que dizê-lo, o povo grego também é culpado: viveu na facilidade e numa frivolidade que o levou a aceitar todos os acordos.

Tenho frequentemente a impressão de que uma espécie de vulgaridade, de grosseria, invadiu o meu país. Às vezes, vê-se uma forma de riso, por exemplo, bastante assustadora: um riso que, nas palavras do monge do “Nome da Rosa”, de Umberto Eco, distorce o rosto do homem e o torna feio... Não quero dizer que gostava que as pessoas chorassem, mas este riso denota uma forma de imprevidência insuportável. Então, quando digo a mim mesmo, por vezes, que gostaria que a Europa desse uma sova na Grécia, é porque estamos mesmo a asfixiar. O que se vê de dentro, é realmente um povo que sofre muito, que sofre as consequências da corrupção generalizada, mas que não é apenas vítima: os nossos políticos são feitos à imagem do nosso povo. Esta mentalidade deplorável de que falo pertence a toda a população, e nem é exclusiva da população grega: podemos traçar inúmeros paralelos com a Itália e a Polónia, por exemplo...

Como fazer, então, emergir essa mudança profunda?

Por enquanto, é quase da ordem da utopia. Nas condições em que vivemos, falar de uma nova civilização parece uma espécie de sonho que pertence à arte e não tanto à realidade. É o grande contributo da arte e da literatura: a invenção. Todas as grandes invenções, a começar pela democracia e a tragédia, saíram de uma realidade histórica específica, como muito bem demonstrou Cornelius Castoriadis. É por isso que nos devemos perguntar se a democracia que foi inventada na Antiguidade ainda pode funcionar.

Talvez seja altura de inventar uma nova forma de governação... Penso num poema escrito por Guenter Grass sobre a Grécia – intitulado “A Vergonha da Europa”, foi publicado em 25 de maio pelo escritor alemão no Süddeutsche Zeitung e começa assim: "Afastas-te do país que foi teu berço...". Para mim, é um mau poema – enfim, superficial –, porque, se falamos da Grécia como o "berço" da nossa civilização, é preciso ver que esse berço se tornou sepultura. Mas, por sua vez, o túmulo pode tornar-se berço... A Humanidade, até agora, sempre renovou os seus pontos fortes e modelos de civilização no meio das desgraças e calamidades. Não há nenhuma razão para pensar que não pode continuar assim.



DIMÍTRIS DIMITRIÁDIS


Escritor, criador e tradutor


Nascido em 1944 em Salónica, onde continua a viver, Dimítris Dimitriádis é dramaturgo, ensaísta, poeta e tradutor de muitos autores, como Shakespeare, Tennessee Williams, Samuel Beckett, Jean Genet e Marguerite Duras. É autor de vários romances e de três dezenas de peças, entre as quais Morro como país [1978], traduzida e realizada em muitos países






Antologia (inclui a crise de 2015):


Na noite do domingo, 5 de julho: uma esperança renovada de que seja a sociedade - e não os interesses privados do capitalismo financeiro - a instância de decisão sobre o caminho a ser seguido

Na semana que antecedeu o plebiscito de 5 de julho: cidadãos gregos acotovelados na porta de algum banco de Atenas tentando sacar dinheiro para as suas necessidades. Encontraram a agência fechada. É o resultado mais dramático da falência do sistema capitalista.


Grécia e os credores acordam a criação do Fundo de privatização (El País)

Parlamento grego aprova 1a rodada de reformas (Estadão) e na Folha

FMI defende o perdão à Grécia (El País)

Rendição da Grécia: miséria do euro e do capitalismo (Outras Palavras)

Grécia pode ter que vender ilhas e ruínas para cumprir acordo (Folha)

Concessões abrem crise (El País)

Os países endividados eram nosso pior inimigo, diz ex-ministro (El País)

O acordo dos vencidos (Gilles Lapouge)

Desconfiança sobre a Grécia se mantém (ESP)

Matar o projeto europeu (Paul Krugman)

O risco de uma saída dos gregos não pode ser descartado (ESP)

Bancos gregos receberão 10 bilhões de euros para reabrir portas (ESP)

Novo plano de resgate provoca crise política na Grécia (Estadão)

Liberdade e independência para a Grécia (El País)

Rendição unilateral (Celso Ming)

Maringoni: A Wehrmacht financeira e os partisans do Syria (Boitempo)

Grécia aceita acordo com duras condições (El País)

Vingança ou desconfiança (El País)

Merkel avisa que acordo com a Grécia não será a qualquer preço (El País)

Acordo: Grécia aceita o plano europeu com concessões adicionais mínimas El País_090715

Žižek: Um novo começo para a Europa?_Boitempo_090715

Não (Jânio de Freitas, Folha)

Atenas e o possível retorno da política (Slavoj Zizek, Outras Palavras)

O risco de colapso bancário deixa a Grécia nas mãos do Banco Central Europeu (El País)

Grécia clama contra a austeridade (El País)

"A democracia vence o medo", diz 1o. ministro grego (Terra)

Grécia e Brasil: promessas dolorosas e estelionato eleitoral (Sakamoto)

Tempos austeros. Boaventura de Sousa Santos fala sobre a crise da Grécia.

* Dois Prêmios Nobel recomendam o "não" no plebiscito de domingo: Paul Krugman e Joseph Stieglitz

Por uma nova heresia (Slavoj Zizek)

Chega o dia, finalmente (The Economist)

Tsipras apela aos gregos para que digam não à chantagem (El País)

Grécia decide o destino do euro e da UE (El País)

Governos que se comportam mal (ESP_030715)

Uma longa crise (VoxEurop)

Entenda o problema da dívida da Grécia_ESP_200215

Grécia: uma longa crise (VoxEurop)

Uma explicação blogueira da crise na Grécia (não é tese de PhD)_ESP_300615

Assista aqui aos depoimentos de Maria Lúcia Fattorelli, economista brasileira que participou do comitê de monitoramento da dívida grega

Esquerda radical chega ao poder na Grécia - Economia - Estadão

Vitória da oposição na Grécia é 'golpe' contra receita de austeridade - Economia - Estadão

Grécia não terá tratamento especial, alerta FMI - Economia - Estadão

Radical de esquerda assume como novo primeiro-ministro da Grécia - Economia - Estadão

Grécia pressiona mercados, mas divide atenção com BCE | Valor Econômico

Líder da esquerda radical, Tsipras é novo primeiro-ministro da Grécia | Valor Econômico

Eleições Grécia 2015: Syriza abre uma nova era política | Internacional | EL PAÍS Brasil

Eleições Grécia 2015: Miragem de revolução | Internacional | EL PAÍS Brasil

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Grécia: “Mesmo que Tsipras realize apenas 5% do que prometeu, já será muito”_El País_040315

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