sexta-feira, 6 de julho de 2012

Como são as coisas...

O Prof. Ailton Fernandes, do Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO-SP), descreve no último boletim da entidade como tem sido desigual a luta dos trabalhadores para conseguir do governo a isenção do pagamento do Imposto de Renda sobre a Participação no Lucro e Resultados das empresas (leia o texto aqui). 

A indignação do Prof. Ailton com o corpo mole que o governo faz em torno do assunto tem toda a razão de ser, já que o passa moleque das manobras de gabinete, as retóricas vazias das reuniões com representantes sindicais, os adiamentos sucessivos da deliberação que resolveria o assunto, tudo isso apenas demonstra como não tem substância essa garantia que o ministro da Fazenda nos dá, todos os dias, de que a estratégia oficial para levar o Brasil a sair da crise é o fortalecimento do mercado interno. Não é verdade. O que o governo está fazendo é aprofundar a aventura financeira do endividamento da população ao mesmo tempo em que afaga os gigantescos interesses empresariais e financeiros. Nenhum estudante de pré-escola precisaria fazer muito esforço para entender que o resultado disso é um poder de compra inconsistente e irreal dos salários e um progressivo aumento do poder relativo dos bancos e grandes empresas sobre toda a economia nacional. Como são as coisas... o ministro parece ter se tornado refém dessa lógica e, o que é pior, parece acreditar nela...

Eu realmente torço para estar enganado, mas chama a atenção, por exemplo, o valor total das isenções fiscais com as quais o governo brindou a indústria automobilística - 26 bilhões de reais - em contraste com essa hesitação em isentar a PLR do imposto de renda, esta sim uma medida de efeito direto sobre poder de compra do trabalhador. Chama mais atenção ainda a contrapartida da isenção fiscal: as montadoras, com a folga financeira e com o estímulo ao crédito com que são beneficiadas - não só reduzem a produção para zerar estoques; aumentam os níveis de remessas de lucros para suas matrizes. 

Essa é a face mais simples e evidente do modelo sobre o qual a economia brasileira está assentada: a profunda ingenuidade com a qual o ministro Mantega exibe a crença de que é o setor privado que tem nas mãos a  chave para tirar o país da crise ao mesmo tempo em que descrê - e evita falar - da necessidade de aprofundar as mudanças na estrutura da renda com a transferência da riqueza do setor privado para a área social. A falta se seriedade de propósitos com que está sendo tratada a isenção do IR sobre a PLR  é mais um sintoma dessa contradição. 
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* Leia aqui um apanhado do noticiário sobre os privilégios da indústria automobilística.
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