quarta-feira, 11 de julho de 2012

O equívoco de Fátima Bernardes: o banal como notícia...

Benigni no filme de Woody Allen: o cotidiano não se esgota na banalidade
Não há engano nenhum: a ilustração da postagem é mesmo a foto do italiano Roberto Benigni, um dos atores do último Woody Allen - Para Roma, com amor. De todos os episódios do filme, o  estrelado por Benigni foi o que me chamou mais a atenção porque é nele que o diretor aponta, com toda a sutileza que o caracteriza, um dos traços mais sensíveis da cultura contemporânea: a banalidade que se institui como notícia. É essa a lógica que explica o aparentemente incompreensível processo que eleva o pequeno cidadão que Benigni representa à condição de estrela do jornalismo porque é a banalidade de seu cotidiano o que interessa aos jornalistas.

Como ele escova os dentes? O que come? O que veste? É essa pauta desprovida de qualquer relevância que forma o núcleo principal da sociedade midiática, ou os programas que estimulam nosso voyeurismo e curiosidade não fariam sucesso algum, ainda que de forma extremamente fugaz... Rapidamente, como se percebe no próprio filme, já é outro o atrativo que seduz não exatamente a opinião pública, mas todos os componentes que movimentam o jornalismo, em especial os repórteres.

Pois no dia seguinte me deparei com algumas cenas do Encontro com Fátima Bernardes, o novo programa que a Globo inventou. No filme de Woody Allen, a banalidade do cotidiano é o pretexto para a ironia sobre o contemporâneo; mas no programa da ex-apresentadora do Jornal Nacional a insistência com que as variedades curiosas do dia-a-dia, absolutamente - em sua grande maioria - desprovidas de relevância social, são alçadas à condição de fatos jornalísticos criam um tal constrangimento que nem mesmo os que participam do programa parecem estar à vontade com as bobagens que ouvem e veem.

Semestre passado ofereci pela 2a vez no PPGCom da UMESP a disciplina Narrativas híbridas do cotidiano, voltada para a análise dessa categoria cada vez mais percebida como elemento que estrutura a vida social e o processo de cognição do real, em sua dupla dimensão: a informativa e a cultural. A comparação entre o espisódio protagonizado por Benigni no filme de Allen e esse equívoco que vem sendo cometido todos os dias pela Globo reforça uma das linhas de análise do curso, uma 3a natureza do corriqueiro: sua desimportância como fato noticioso. A prática do jornalismo é que precisa se dar conta disso... e a emissora com alguma urgência, ou o programa da pobre Fátima vai para o espaço...
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