quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Curtas da semana

As escolhas mexicanas do presente levaram o país a perder sua soberania
☞ O Estadão alardeou nesta semana que a economia mexicana supera a brasileira. Basta ler a matéria (aqui) para perceber que essa é a opinião de algumas agências que ranqueiam com melhores notas os países que mais se adaptaram às exigências do capital financeiro para sobreviver à crise. O resultado, no caso mexicano, foi mais crescimento econômico, mas maior concentração da renda e mais pobreza. São as próprias fontes ouvidas pelo jornal paulista que admitem que um dos fatores desse desempenho foi o arrocho do poder de compra da população. O resultado é o que se vê: um país que se tornou um protetorado dos Estados Unidos, dominado pelo tráfico das drogas e com um salário médio que corresponde a 20% do salário médio dos trabalhadores brasileiros. Não é exatamente um modelo que deva ser seguido...

☞ Tudo vai muito bem até que ruídos sociais começam a ser ouvidos. Desta vez parece que é o agronegócio que está na ciranda com os protestos que emergiram no congresso de trabalhadores agrícolas realizado em Brasília. A grande mídia, naturalmente, vai na toada de sempre com a construção simbólica do radicalismo que sempre aparece associado às reivindicações do campo. A alternativa é a leitura dos sites que mantém em relação aos movimentos sociais uma cobertura mais simpática (aqui). As denúncias mais consistentes são as que dão conta da internacionalização da agricultura brasileira, do "passivo ambiental" que o modelo adotado está criando para o país e do retorno à monocultura excludente representada pela expansão da lavoura canavieira.

☞ Analisei com meus alunos na semana passada um desses textos clássicos da sociologia brasileira - Capitalismo tardio e sociabilidade moderna, de Fernando A. Novais e João Manuel Cardoso de Mello,  capítulo do 4o. volume da coletânea História da Vida Privada no Brasil. O trabalho é de uma clareza meridiana e não há exemplos que os autores usem que não tenham referências na realidade atual, em que pesem todos os índices de mudança econômico-social que o Brasil viveu nos últimos anos. O essencial, no entanto, mais do que a referência à realidade concreta vivida pela população no ambiente dos padrões paradoxais de consumo em meio à carência dos modos de vida, é o disparate estrutural que continua marcando a nossa modernização. Pois veio a público a propósito desse enfoque o relatório da ONU segundo o qual o Brasil é o 4o. país com maior desigualdade social em toda a América Latina (aqui).

☞ A tecla mais batida no 9o. Congresso Brasileiro de Jornais promovido pela ANJ não foi a crise do jornalismo, mas as alternativas que as empresas jornalísticas buscam para conseguir vender seu conteúdo nas plataformas digitais. O paradigma é a estratégia encontrada pelos diários estadunidenses, a começar pelo N.Y.Times e pelo Wall Street Journal. Foi do vice-editor executivo deste último, Raju Narisetti, que parece ter vindo a luz no túnel para saciar o comichão que atiça os empresários brasileiros: quem lê mais paga menos, sempre no sistema do paywall. Particularmente, entendo que a produção noticiosa de um veículo não pode ser comercializada, mas esse é um conceito que extrapola o entendimento do próprio jornal como empresa... As principais reflexões de Narisetti estão aqui.

☞ Na minha opinião, é de autoria da professora da Universidade Federal Fluminense Sylvia Debossan Moretzsohn a melhor análise sobre os termos em que retornou ao debate a exigência do diploma para o exercício do jornalismo (aqui). A discussão volta à ordem-do-dia depois que o Senado, no início deste mês, votou favoravelmente à medida. O argumento de Moretzsohn, que eu acompanho, é o de que a qualificação do profissional da imprensa não é uma atividade que possa ser confinada a uma espécie de diletantismo de outras profissões, mas obtida através do exercício da reflexão e da experimentação de cursos superiores específicos. Para a autora do texto, que também é jornalista e que escreve regularmente no Observatório da Imprensa, a dimensão do jornalismo não se cumpre com o que os jornais confundem com o adestramento intensivo que os defensores do fim da exigência do diploma imaginam ser suficiente. 
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Curtas da semana pretende ser um post regular que indique, na minha perspectiva, cinco assuntos que merecem reflexão...
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