quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Curtas da semana

Vietnã: uma guerra que traduziu o século XX
 Disse aos meus alunos dia desses que a Guerra do Vietnã foi o acontecimento mais emblemático do século XX. A afirmação foi feita a propósito da construção da hegemonia dos Estados Unidos depois da II Guerra, um esforço diplomático-militar que se espalhou por diversas áreas do globo, algumas delas inexpressivas do ponto de vista econômico, mas fundamentais do ponto de vista estratégico. O Vietnã foi uma dessas áreas. Nos anos 60 e 70, pelo menos no meio universitário, havia uma torcida latente pela vitória dos guerrilheiros vietcongs e pelo constrangimento internacional que Washington sofria: afinal de contas, era a potência nuclear contra um povo que tirou da soberania de seu país e da liderança de Ho Chi Minh a energia que o levaria à vitória final em 1975.

Pois nesta semana morreu o fotógrafo que registrou uma das imagens mais dramáticas da guerra, a auto-imolação de um monge vietnamita em 1963, um registro que traduziu durante todo o conflito uma situação limite inusitada carregada de tensões humanas e políticas que se acumulavam nos protestos pacifistas que cresciam em toda a parte. Malcolm Browne ganhou prêmios por seu trabalho (aqui), não propriamente por sua competência técnica, mas pelo apuro jornalístico com que incorporou aquela imagem à história contemporânea.

☞ O tema Guerra do Vietnã, ainda mais agora que começa a esquentar a campanha eleitoral nos Estados Unidos, é sugestivo para uma avaliação crítica das políticas externa e interna do país na atualidade. Nos cursos de História Contemporânea que ministro sempre procuro distinguir para os alunos três linhas de interpretação que me parecem definir o tema. A primeira delas decorre do impulso com que foi arquitetada a construção da hegemonia polar estadunidense depois de 1945, uma espécie de linha ascendente que só é interrompida interna e externamente nos anos 70 (Watergate, Vietnã, crise do petróleo, recessão econômica). A segunda, o relativamente curto período de restauração imperial, que vai de meados dos anos 70 até a queda do Muro de Berlim, quando os Estados Unidos, nas mãos de um conservadorismo político inédito (Reagan, Bush pai) tornam-se a potência solitária do capitalismo e da globalização. A terceira é a que se estende até agora com a eclosão da crise de 2008.

Paul Krugman acha que os norte-americanos perderam o rumo nesse processo. Em artigo publicado no The New York Review of Books (aqui, via Outras Palavras) afirma que Obama frustrou a expectativa de que houvesse uma reedição do New Deal pela corrida atrás das propostas conservadoras dos republicanos. Essa perda da identidade original com a qual a densidade eleitoral do atual presidente foi eleito e um progressivo reacionarismo interno acabou, também, levando para a direita e para uma agressividade imperialista crescente a política externa do país. Vale a pena ler o texto.

☞ Talibãns decapitam 17 civis afegãos que faziam festa mista e com música. É a manchete d'O Globo em matéria publicada nesta 4a feira (28 de agosto). 

☞ O professor Eugênio Trivinho sempre dá o que falar, especialmente pelas características contundentes de suas reflexões em torno dos dilemas da sociedade contemporânea decorrentes das transformações antropo-tecnológicas que afetam todo o universo cultural. Trivinho é docente do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e foi entrevistado recentemente por Bruno de Pierro, um ex-aluno meu, sobre vários temas da atualidade midiática. A frase que dá a manchete da matéria de Bruno, por si só, já sintetiza a polêmica que tende a provocar - "o jornalismo está defasado". Sugiro a leitura e a reflexão sobre as questões que Trivinho discute (aqui).
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