domingo, 19 de agosto de 2012

Paradinha no pênalti? Só com 2 goleiros...

Empresários 1 x Sociedade 0
Acho que foi no ano passado que a FIFA passou a admitir a paradinha na cobrança de pênaltis. Não entendo de futebol e muito menos de questões tão refinadas como essa, mas penso que a simples observação do que acontece com o goleiro nessa hora faz ver que a aceitação de que um juiz possa validar um gol que decorre de uma encenação do batedor é uma covardia: o recurso, na verdade, corresponde a um segundo chute contra o qual nem toda a agilidade do mundo consegue se impor, só com sorte. Daí a minha tese: paradinha, só com 2 goleiros. 

O comentário não é aleatório nem "tertúlia flébil para acalentar bovinos", como diria o pai do Beno, mas vem a propósito dessa mudança de rumo na política econômica que o governo Dilma Roussef passou a implementar a partir desta semana. O que foi exatamente que se alterou? Simplificando,  a prioridade passa a ser dada pelo governo aos investimentos de infraestrutura no lugar da sustentação monetária e financeira que fortalecia o mercado consumidor, antes privilegiada e praticamente exclusiva. Como disse a própria presidente, a nova política pretende "desatar o nó" do capitalismo no Brasil. Se não exagero na metáfora, o chutão da presidente está para o país como o pênalti para o futebol.

Em outra oportunidade, comentei que aquela história de forçar a queda dos juros, intervir na cotação da moeda, assegurar a expansão do crédito estava formando uma bolha financeira no país em relação à qual ninguém se sentia seguro. Com o endiviamento da classe C chegando a 46% da renda familiar, com os bancos ampliando suas perdas com a inadimplência e com a retração geral do comércio e da atividade produtiva da qual resultou o "pibinho", era mesmo de se esperar que os tecnocratas mudassem o foco da ação do Estado e admitissem que sem pesados investimentos na infraestrutura o crescimento econômico, se ocorresse, seria volátil. Daí meu otimismo com essa mudança de rumo...

O problema é a paradinha. Mais uma vez, como já aconteceu em outras oportunidades de relançamento da economia, a política econômica promove uma brutal transferência de recursos públicos - portanto, da riqueza gerada pela sociedade brasileira - para as mãos da iniciativa privada, sem a contrartida do risco e da dimensão social que a burguesia deve assumir na nova fase de sua consolidação no país. A imprensa foi farta nas matérias que apontam o problema, ainda que não o tenha submetido a uma análise mais detida. O BNDEs, por exemplo, vai financiar 80% dos recursos da privatização dos projetos anunciados (leia aqui)...

O que eu chamo metaforicamente de paradinha no plano econômico da presidente é essa construção meio jabuticabeira com a qual o Brasil vai desatando o nó do capitalismo: um regime em torno do qual a rede de proteção do Estado é de tal forma abrangente e generosa que o capital nem concorre nem se arrisca; eventualmente, nem existe. Agora mesmo, como uma espécie de subproduto desse paternalismo   que patrimonializa o empresariado, leio a matéria d'O Globo segundo a qual os subsídios de R$ 6,5 bilhões dados ao Minha casa, minha vida  são provenientes do FGTS, fato que já supera o rendimento anual do próprio Fundo e põe em risco seu capital principal (leia aqui). Em outras palavras: recursos dos trabalhadores postos a serviço do capitalismo financeiro, mesmo daquela parcela que está nas mãos dos bancos públicos.

Não há nada de errado nisso, exceto a filosofia que orienta todas essas práticas. Daí a minha analogia: tanto quanto são necessários 2 goleiros para compensar o desequilíbrio de forças provocado pela paradinha, penso que também é preciso aumentar a contrapartida social com a qual os privilégios do capital devem arcar. A legislação trabalhista, por exemplo, deve ser ampliada e reforçada em seus fundamentos; o recurso à Justiça como instância mediadora e disciplinadora de cláusulas sociais e econômicas dos dissídios coletivos deve retornar à sua plena vigência, sem as restrições da Emenda 45. No caso das políticas sociais voltadas para a saúde, minha proposta é simples: o congresso deve votar a lei 1/1 - que obrigaria cada operadora de planos de saúde a custear o investimento público equivalente a um indivíduo por segurado de sua carteira. No caso das universidades privadas, a aplicação de 50% de sua rentabilidade financeira e patrimonial em pesquisa científica desenvolvida e supervisionada pelas universidades públicas, e assim por diante...

Sonho meu... mas isso tudo é absolutamente razoável... e não mais que justo quando se observa o desequilíbrio que estamos testemunhando nessa arrumação que pretende nos salvar da crise. 
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