domingo, 26 de agosto de 2012

Qual é o meu candidato a prefeito de São Paulo?

O discurso coerente tem que ser o da contenção radical da
especulação imobiliária, ou São Paulo acaba virando
uma Dresden
Pessoalmente, acho que a eleição para prefeito nem deveria existir. Aprendi com o professor Antonio Delorenzo Neto que a administração moderna das cidades (principalmente as grandes) deve ser implementada através de projetos de gestão urbana contratados por câmaras de vereadores depois de audiências públicas amplamente democráticas. Nas aulas de Sociologia Urbana que tive com Delorenzo, assim que o tema vinha à tona, era inevitável o seu questionamento: como pensar em despolitizar o cargo de prefeito? 

O velho professor não se inquietava: a eleição para o executivo das cidades é uma tradição municipalista que o Brasil herdou do clientelismo agrário e nunca, em qualquer momento da história brasileira, ela se assemelhou às políticas dos condados ingleses ou norteamericanos. Entre nós, tratou-se sempre de arranjos no âmbito dos coronéis e do simulacro de partidos que foi construído desde o fim do II Reinado. Para Delorenzo o prefeito poderia ser um técnico, um engenheiro, um urbanista, um economista ou um administrador, até mesmo um consórcio de profissionais que respondesse por um projeto de médio prazo a ser desenvolvido sob a supervisão dos parlamentares do município. Com isso, talvez a cidade pudesse ficar livre desse oportunismo periódico que renasce a cada 4 anos, discursos improvisados, retórica desprovida de compromissos com os temas que dizem respeito ao efetivo interesse público.

Veja-se por exemplo o caso do ex-governador, ex-prefeito, ex-ministro e ex-senador José Serra. Simpatizo com sua história e em diversos lances de sua passagem pelos cargos que ocupou - em especial o Ministério da Saúde - acho que ele encarna bem propostas da social-democracia, aquelas que considero mais avançadas. No campo econômico, sempre respeitei bastante sua aproximação com as propostas desenvolvimentistas de fortalecimento do Estado. Mas penso que nada disso está presente no impulso que traz Serra de volta às eleições municipais de São Paulo, exceto a obsessão pela Presidência da República e pela necessidade de manter a hegemonia do PSDB em São Paulo, nada que represente algo parecido com um projeto de gestão nas várias dimensões que a cidade precisa.

Além disso, há essa herança de Serra representada por Kassab. O atual prefeito, a par das demonstrações de pouca seriedade política que tem dado na contra-dança dos partidos políticos e nas oscilações de direita-centro-centro-esquerda-esquerda-centro-direita que ensaia quando se fala nisso, transformou a cidade num território de ninguém. As notícias sobre os níveis de irregularidades para que edificações fora dos padrões fossem autorizadas e que foram praticadas na ante-sala da cúpula da prefeitura, ainda que não envolvam o próprio Kassab, representam um pouco caso formidável com um dos setores estratégicos da administração municipal, e o dano que provocaram é irreversível. Se o Serra herda esses compromissos tácitos com as empreiteiras que impulsionam a selvageria com que São Paulo tem sido tratada (como parece que herda uma vez que não sinaliza com uma outra política urbana...), não é o cara indicado para o cargo de prefeito de jeito nenhum. 

Não voto no Serra, portanto, porque observo que ele não tem projetos consistentes - a exemplo do que isso representa no terreno da expansão vertical da cidade. Dobrar equipamentos, duplicar redes, tirar do bolso do colete programas mirabolantes que não segurem esse dinamismo caótico e predador do novo capital, não é exatamente o discurso que me convence... E nem me convence de toda forma quando  o  discursante é qualquer outro candidato, o Russomanno, por exemplo... E é sobre ele o próximo post.
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* Reúno numa página deste blog um conjunto de notícias que dão conta da progressiva destruição que a cidade atravessa nos últimos nos. Sugiro que esse material seja lido para que se tenha uma ideia daqueles que considero os principais desafios de uma nova gestão de São Paulo: A cidade destruída.
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