domingo, 30 de setembro de 2012

A sala vazia...

O espólio conservador de Hebe Camargo:
identidade simbólica de difícil substituição
Uma coincidência que eu tenha pedido aos meus alunos da disciplina Mídia e Cultura, da pós-graduação da Umesp neste semestre, um seminário sobre o livro de Sérgio Miceli, A noite da madrinha(*), cujo foco principal de análise foi o programa de Hebe Camargo. Considero o trabalho de Miceli, que resultou de sua dissertação de mestrado na FFLCH da USP no início dos anos 70, um dos mais importantes estudos de sociologia da Comunicação (ou da Mídia, se ficar mais adequado) já produzidos, aqui e no exterior; e a respeito dessa minha própria avaliação revelo uma preocupação: o fato de que a pesquisa sobre Hebe Camargo tenha se desenvolvido não no interior da própria Comunicação, mas lá na fefeleche, com recursos conceituais e metodológicos de uma outra área do conhecimento.

Naturalmente, não é minha intenção inventariar, nos limites deste post, os meandros e desencontros científicos das Ciências Sociais, mas é inevitável fazer referência a esta peculiaridade de A noite da madrinha: um desvendamento de ordem multidisciplinar que opera no campo da investigação alternada entre a construção dos sentidos permitida por um segmento da Tv de massas e a complexidade dos valores culturais, ideológicos e políticos instaurados pela racionalidade da mídia. Penso que é encantadora a maneira como Miceli articula esses vários elementos e como oferece respostas consistentes para as próprias expectativas que a problematização de sua pesquisa produz.

Aqui do meu lado, desde o momento em que soube da morte de Hebe Camargo, procurei localizar nos vários jornais e telejornais alguma pista que permitisse ao leitor e ao espectador situar os motivos de seu deslumbramento com a apresentadora; alguma resposta um pouco mais refinada ou exigente que conseguisse dar conta de um fenômeno que atravessou quase quatro décadas de reinado meio absoluto nos índices de audiência. Em todos eles, a admiração pela apresentadora, como era de se esperar, mistura-se com o reconhecimento de seus atributos pessoais, um conjunto de virtudes que respondiam pela empatia que ela adquiria - e solidificava - com seu público. E me parece que esse componente individual explica o êxito de sua passagem pela televisão brasileira, de tal forma que foram diversas as matérias que se aventuraram a indagar sobre a recorrência do "trono vago". Afinal, quem é que ocupa a sala de visitas que Hebe Camargo deixou vazia?

O livro de Sérgio Miceli mostra que o problema é mais complexo: a identidade construída por Hebe Camargo esteve longe de ter como causa apenas o talento de sua individualidade; foi também resultado do poder de síntese simbólica identitária que seus programas adquiram com o imaginário das classes médias brasileiras, em especial com o conservadorismo tensionado pela sociabilidade moderna que se manifestava em diversos de seus quadros, em suas entrevistas, em suas mensagens normativas e em seus padrões de comportamento. Um certo tipo de parentesco que levava a estabilidade dos valores tradicionais aos limites da transgressão, como um "selinho" diário - ousado e ingênuo, a um só tempo, dado como recado de que tudo é possível... sem exageros.

Fica o registro: a sala de visitas está vazia - e se ela é alguma extensão da esfera pública, rapidamente vai ser ocupada. O desafio é substituir a eficácia simbólica de Hebe Camargo e dotá-la dos ingredientes adaptados ao tempo presente que possam ser sintetizados na narrativa da televisão e no âmbito da audiência que temos agora...
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(*) Tenho conhecimento de duas edições da obra A noite da madrinha, de Sérgio Miceli. A primeira, de 1972, é a da coleção Debates (Ciências Sociais), da Editora Perspectiva. A segunda, de 2005, foi lançada pela Companhia das Letras. As duas editoras são de São Paulo.
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