domingo, 16 de setembro de 2012

Centenário fora de hora: eu ainda gosto de McLuhan


Marshall McLuhan
(1911-1980)
A passagem dos 100 anos do nascimento de Marshall McLuhan no ano passado motivou, tanto na imprensa quanto na área acadêmica, uma série de análises sobre as principais contribuições que o professor canadense deu ao entendimento dos processos comunicacionais, entre elas a interpretação de que a televisão provocou mudanças profundas nos padrões da cultura contemporânea. 

Deixei passar a oportunidade e só agora é que me dispus a algumas linhas  sobre ele.  Fica como registro... mas não totalmente desprovido de importância em meio às inúmeras constatações de que o visionário figurante de Woody Allen estava certo em quase tudo o que disse.

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De todas as cenas que marcam a exposição política de Richard Nixon na entrevista famosa concedida ao apresentador David Frost, em 1977, nenhuma me parece mais emblemática do que aquela em que as imagens da televisão conseguem captar o semblante prostrado e desfigurado do ex-presidente no momento em que admite as ilegalidades que cometeu enquanto estava no cargo. O momento, reproduzido com muita competência por Ron Howard no filme Frost/Nixon, de 2008,  é um desses instantâneos da História carregados de múltiplos sentidos, todos eles ali sob o impacto que a televisão já adquirira nos anos 70, uma espécie de epicentro dos processos culturais vividos nas últimas décadas e que, tudo indica, continuarão existindo a longo prazo.

Sobre esse mesmo instante que registrou o transe vivido pelo ex-presidente, disse o jornalista James Reston Jr, um dos profissionais que roteirizaram a entrevista para David Frost, sobre o impacto das declarações de Nixon e o efeito que adquiriram em sua transmissão televisada:

O primeiro e maior pecado do engodo da televisão é que ela simplifica e reduz ideias grandes e complexas, grandes fatias de tempo. Carreiras inteiras são reduzidas a um momento(1).


Essas poucas palavras, que remetem a um processo de reducionismo da complexidade dos fatos e de sua dimensão temporal, talvez possam ser usadas aqui como uma feliz descrição da essência que o impacto da televisão provocou – e continua provocando – no mundo contemporâneo. Penso que, independentemente de sua compreensão como um aparato que intensificou a disseminação das informações de qualquer natureza, jornalísticas ou não, ou como um instrumento que guarda uma notável capacidade de adaptação às mudanças tecnológicas e, por conta disso, continua espalhando seus efeitos, dos hábitos do cotidiano à variedade de possibilidades de expressão estética e conceitual no campo das artes, o fato essencial está situado na sintetização que ela, a Tv, provoca no processo de observação da realidade, com todas as intensas consequências no âmbito da cultura.

Essa interpretação não é nova e quando começou a ser construída não decorreu de qualquer fenômeno surpreendente e inesperado, como é possível perceber que tenha acontecido com outros processos de inovação técnica(2). Ao contrário: a julgar pelo volume de estudos que desde cedo provocou, a televisão constituiu-se em objeto privilegiado da análise sociológica desde seu surgimento, tendo sido acompanhada por teóricos de correntes diversas de pensamento de tal forma que é possível dizer que todo o espectro de possibilidades analíticas foi e continua sendo contemplado ao longo das últimas cinco ou seis décadas.

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(1) Transcrição feita pelo autor de trecho do filme Frost/Nixon, dirigido por Ron Howard, Universal Studios, 2008.

(2) Refiro-me à lacuna (ao gap) de tempo que é possível observar entre o surgimento de uma inovação tecnológica e a percepção de seus efeitos em terrenos situados além daqueles projetados para sua funcionalidade. Não é o caso de expor aqui as particularidades de cada uma dessas inovações ocorridas desde a 2a. Revolução Industrial no século XIX, mas é possível afirmar com algum grau de segurança que a televisão é o único invento cujo desenvolvimeno foi acompanhado do estudo de todos os efeitos que provocava, desde seus primórdios, em áreas situadas em espaços distantes de sua aplicabilidade imediata. A imagem que se faz desse processo traduz-se numa inevitável frase de efeito, quase um lugar comum, embora não menos pertinente à descrição de seu desenvolvimento: a televisão avançou de mãos dadas com a observação acadêmica sobre ela.
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