quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Identidades...

Catalunha: impulsos identitários separatistas
versus unidade do Estado e do capital
Tenho em mãos o 2o. volume da trilogia A era da informação, de Manuel Castells. Fui levado a reler alguns trechos deste O poder da identidade motivado por duas reflexões igualmente importantes. 

A primeira decorre de uma discussão acadêmica que tive recentemente sobre a atualidade que pode ter um estudo com quase uma década e meia de existência. A polêmica é bizantina de toda forma, mas mostra a persistência de um critério meramente cronológico para atestar a força da reflexão teórica e empírica de qualquer clássico, a julgar pela forma generalizada com que é repetida cansativamente, como se a data de edição de um livro pudesse ser dogma de julgamento de sua validade científica.

O debate de que participei, no final das contas, terminou de maneira inconsequente - até porque penso que a interpretação que o autor espanhol faz da nova arquitetura dos movimentos políticos internacionais - e sobre a qual ainda se debruça quando escreve sobre as mobilizações recentes em diversas capitais do mundo do capitalismo organizado - não é apenas atualíssima; ela nos dá uma pista para lidar conceitualmente com as novas formas de organização das demandas sócio-culturais da modernidade tardia.

A segunda reflexão vem a propósito das notícias publicadas hoje no jornal El País, uma delas dando conta da morte do embaixador dos Estados Unidos na Líbia, depois que um grupo muçulmano atacou o consulado de Bengasi em protesto contra um filme "blasfemo" sobre a vida de Maomé (aqui); outra, sobre as manifestações pró-independência da Catalunha acontecidas em Barcelona (aqui). São exemplos que me parecem dotados de uma contundência extraordinária para o entendimento desses dois movimentos que se antagonizam sistemática e crescentemente há pelo menos 20 anos: a articulação global do capital financeiro - que exige a unidade do Estado como força impositiva sobre a diversidade cultural; e a desarticulação generalizada provocada pela pulsão das identidades e demandas fragmentárias de natureza diversa, que cobra a dispersão como força emancipadora dos grupos sociais.

Se é possível entender esse antagonismo como a característica predominante nos conflitos políticos da atualidade, a obra de Castells, surgida em 1999 em edição brasileira, mantém toda a sua pertinência na explicação das tendências históricas contemporâneas.
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* Ainda sobre as manifestações ocorridas nos países de forte presença muçulmana contra o filme sobre Maomé, sugiro a leitura desta matéria do Ópera Mundi.
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