segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Meu candidato é o Haddad...

Não vejo saída para São Paulo sem reformas comprometidas com a
complexidade social da cidade.. e não só com os interesses do capital

Acabo de ler a breve resenha que o Estadão publica do livro do professor André Singer sobre o lulismo (aqui). Eu já havia conversado rapidamente com o autor da obra por ocasião de uma banca da qual participamos na PUC-SP. Na época, avaliando a experiência que teve como porta-voz do governo Lula, pude perceber que o rigor analítico de Singer não o deixaria enveredar pelo resgate ufanista das mudanças que o país vive desde as eleições de 2002. A crítica publicada hoje, nos rápidos trechos em que resumem a essência da obra, felizmente me diz que minhas impressões estavam certas (1).

Mas quero me referir aqui, em especial, à avaliação segundo a qual o que Singer define como "lulismo" é uma espécie de movimento político (eu diria, quase uma matriz ideológica que articula elementos de outras tendências) caracterizado por seu sentido a um só tempo "reformista" e "conservador", de onde a localização de um modus vivendi harmônico e condescendente com o grande capital, passo a passo com   medidas não estruturais de distribuição da renda. Não sei até onde vai a análise do ex-secretáriio de redação da Folha, mas eu diria que essa caracterização me faz pensar que toda a performance de Lula - e que parece prosseguir em diversos aspectos do governo Dilma (apesar do realinhamento de que fala Singer)  - acabou fortalecendo no Brasil a constituição de uma sociedade arrivista e extremamente desideologizada - cujo cerne existencial me parece ser mais a da perspectiva dos direitos do consumidor que a da perspectiva dos direitos da cidadania.

Nada disso, no entanto, desmerece ou sequer desqualifica as várias dimensões do processo de mudanças dos últimos anos, mas contraditoriamente parece que essas marcas que eu arrisquei citar no parágrafo anterior acabaram por isolar, dentro do próprio lulismo, os segmentos mais progressistas que o sustentaram desde o final dos anos 70. Como explicar de outra forma esse desafio que Russomanno representa para o candidato de Lula, justamente no epicentro das mudanças sociais e econômicas apontadas de forma quase unânime pelos estudiosos que as analisam? Na minha opinião, o traço conservador e mesmo reacionário da densidade eleitoral desse "populismo evangélico" (aqui) reflete a despolitização das mudanças sociais. Se acrescentarmos a isso o estado de letargia e de insignificância dos demais partidos, o vazio ocupado pelo candidato da Universal torna-se mais fácil de ser entendido.

É por esses motivos que meu candidato é o Fernando Haddad. Não se trata apenas de uma empatia pessoal com a figura do candidato, um jovem intelectual com experiência administrativa na área federal e que me parece cheio de honestidade de propósitos, mas fundamentalmente da perspectiva que ele apresenta em dar um sentido político e abrir caminho progressista ao fenômeno que o trouxe até aqui. No caso específico de São Paulo, levando em conta o cenário lastimável dos projetos das outras candidaturas, a escolha por Haddad tem ainda o mérito de sugerir propostas avançadas para a gestão urbana, o que particularmente me anima porque não vejo saída para São Paulo fora do âmbito de reformas de inspiração socialista - e eu penso que é na vaga das características que levaram ao lulismo que isso é possível no Brasil de hoje.

É o que eu penso.
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(1) - André Singer publicou na revista Novos Estudos, do Cebrap, o artigo Raízes sociais e ideológicas do lulismo. O texto, disponível em PDF aqui, parece ter sido o ponto de partida para o livro lançado agora.

* Leia também o artigo "Marcha à ré para a frente", de Mário Sérgio Conti, sobre o lulismo, publicado na revista piauí, edição 72, de setembro deste ano (aqui).


* E Uma boa análise do livro de André Singer, Os sentidos do Lulismo, por Ana Paula Salviatti (via Carta Maior).


* Também vale a pena ler O fenômeno Russomanno. Artigo de 
Lincoln Secco (via Carta Maior).
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