sábado, 6 de outubro de 2012

Discursos do Jornalismo: a maldade da conjunção fantasiada de advérbio...


Uma única particula da manchete da Folha é o suficiente
para dar à informação um sentido todo especial
Há uma expectativa toda especial em alguns segmentos da opinião pública em torno desta etapa do julgamento do mensalão, pois é nela que irá se definir a culpa ou a inocência dos réus de maior importância política em todo o processo, principalmente de José Dirceu. 

Na manchete da Folha, no entanto, sutilmente a decisão já foi tomada, se não como manifestação dos votos de todos os ministros do STF, como tendência que se configura como irreversível. O revisor absolveu o ex-chefe da Casa Civil de Lula, mas o texto constrói um destino inescapável, pois outros três "já" o condenaram. Uma maldade da própria partícula e de quem a usou já que ela (a partícula), nesse caso, deixa de ser um advérbio e passa à condição de uma conjunção alternativa (segundo o Houaiss, um "" que indica a inevitabilidade da ação, uma espécie de "coisa esperada" que, na minha opinião, articula todo o sentido do texto do jornal). 

Tenho oferecido a diversos estudantes da pós-graduação uma rápida orientação em torno dessa metodologia tão frequente nas pesquisas sobre os processos da Comunicação - a análise do discurso. A opção por esse caminho exige que se adote um procedimento que consiga comprovar - ou não - a hipótese com a qual todos trabalham, isto é, a eventual presença objetiva e concreta de elementos construtores de significados nos termos constitutivos de um texto, seja ele verbal ou não-verbal. Minha sugestão: é preciso identificar entre todos esses termos - ou na articulação de alguns deles - o que eu chamo de núcleo semântico do discurso, sua  força primordial para a qual e em torno da qual todos os demais termos convergem e se subjugam. 

Penso que a dificuldade maior em implementar essa minha sugestão é a natureza dispersiva e travestida de objetividade que os núcleos semânticos têm uma vez que atuam de forma desaparcebida e sutil, eventualmente presentes até mesmo na virgulação de um texto ou na distribuição de sujeitos e predicados ao longo de uma frase. Recentemente, no site da mesma Folha de S. Paulo (edição de 19/09/12), a manchete Haddad diz que é degradante ser ligado a Dirceu e Delúbio motivou a ira da ombudsman (23/09/12) do jornal para quem o texto da versão eletrônica da matéria invertia inteiramente o que o candidato petista havia dito e que foi registrado pelo diário na sua versão impressa (Haddad diz que associá-lo a José Dirceu é degradante). Difícil saber, nesse caso, se a brutal diferença entre uma construção e outra é mais incompetência do jornalista ou intencionalidade do próprio jornal, mas ao pesquisador é a constatação e o registro da produção de significados distintos o que importa em primeiro lugar. Para que isso seja possível, o recurso à acuidade intelectual e analítica do estudioso, sua percepcão subjetiva e intuitiva do universo dos sentidos produzidos pelos discursos.
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Para o acompanhamento da polêmica que envolve o comportamento do STF no julgamento dos envolvidos no mensalão, sugiro as seguintes leituras:

Para criminalistas, STF aderiu ao direito penal máximo (Consultor Jurídico)

Um tribunal que condena por achar que existe crime onde faltam provas (Carta Maior)


Mensalão e "exceção" (Carta Maior)


Mensalão: nova jurisprudência ou julgamento de exceção (Carta Maior

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