quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A tentação autoritária na crise europeia

Desenvoltura da repressão e impotência das instituições do Estado 
andam juntas e põem em risco a democracia na Europa
Não digo nada de novo aos meus alunos quando aponto como uma das principais características do mundo contemporâneo a desarticulação política do Estado moderno provocada pela emergência da fragmentação das identidades. Dito assim, nesse exagero de simplificação, a hipótese é tão genérica quanto difícil de ser comprovada, mas lá nas aulas de História, que o pessoal acompanha até com um certo interesse, tenho a impressão de ser entendido. Na última oportunidade, foi o desfecho do filme Syriana que discutimos em classe que me permitiu indicar a força dos movimentos muçulmanos como um dos fatos que comprovam o que disse: a explosão das particularides étnicas, linguísticas, religiosas, culturais todas elas, associadas à ilusão de que o separatismo é o caminho para a superação das tensões geradas pela globalização e pela crise das ideologias (sobre o fim das ilusões da primavera árabe, sugiro a leitura da matéria de Diego Viana publicada no Valor Econômico e a reportagem sobre os desafios que o Egito pós-Mubarak representa para a diplomacia dos Estados Unidos publicada pelo Estadão).

Quais são os problemas que esse processo apresenta? Nos limites de um post, penso que é impossível abarcar todos eles, mas o que me chama a atenção neste momento é uma certa vocação autoritária de todos os movimentos gerados no interior dos projetos políticos que nascem com a fragmentação identitária, mesmo quando ela ainda não assumiu uma forma orgânica consistente. Veja-se, por exemplo, o caso da Grécia, onde as tensões afloram como consequência da brutal crise econômica em que o país vive. Sem condições de oferecer um projeto que amenize os problemas sociais, os partidos afundam no esvaziamento da representação parlamentar e abrem caminho para a militarização da ordem e a paramilitarização dos movimentos. O episódio de confronto entre os grupos neonazistas e seus opositores, e a repressão a estes últimos (leia a matéria do Ópera Mundi a respeito), em tudo fazem lembrar a ascensão do autoritarismo que antecedeu à formação da ditadura grega dos coronéis, brilhantemente retratada no filme Z, de Costa Gavras.

Autonomia catalã pode dividir os espanhóis,
quebrar a democracia e pulverizar a Europa
Pois na Espanha, ainda que com aparência diferente, me parece que as motivações da autonomia catalã, que a imprensa do país aponta como um "pacto frente a lo desconocido" (acompanhe aqui a reflexão publicada pelo jornal El País), refletem uma mesma tendência que encontra na particularização da saída da crise - naturalmente com o viés autoritário que isso representa - a compensação para a fragilidade do centro político representado pelo governo monárquico e pelo parlamento. Rajoy, cuja subserviência ao capital financeiro e inexpressividade política, abriu um vazio no sistema representativo espanhol, apenas estimula esse processo.

Em meados dos anos 70, quando as ditaduras portuguesa, espanhola e grega deram início à sua acelerada decomposição, intensificamos - os que se interessavam na época pela natureza do fim do autoritarismo até como forma de explicar a ditadura brasileira - inúmeras leituras sobre o assunto. Uma delas, no entanto, me parecia sempre uma referência pela densidade com que elaborava as análises históricas sobre a emergência e o declínio do fascismo: Nicos Poulantzas (A crise das ditaduras, entre outros). Para ele, a queda daquelas ditaduras tinha como causa uma particularidade: elas não deixaram de existir como consequência de movimentos populares arregimentados por partidos de massa, mas como resultado de inssureições que desde logo articularam a montagem de Estados que já nascem frágeis e que se enfraquecem ainda mais quanto maiores forem as dificuldades que esses três países - não por uma simples coincidência os mesmos três países onde a crise econômica é mais aguda - enfrentam ao longo de sua inserção na comunidade europeia.

É inevitável, por conta desses fatos, que a análise da sucessão de episódios que assumem a forma de pontilhamentos nacionais ou regionais ou étnico-culturais em diversas partes do mundo, procure identificar uma tendência política que sua aparência episódica mais oculta que revela: a da desarticulação da democracia representativa e, com isso, o seu colapso.
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* Sugiro a leitura dos seguintes textos publicados na imprensa europeia e copiados do Presseurop:

☞ Em Barcelona, milhares pedem a união da Espanha (Opera Mundi).

☞ A Europa moderna caracteriza-se pela noção de crise. Entrevista com André Gkucksmann ao Der Spiegel.



☞ Conto das três Europas. Gazeta Wyborcza.

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