sábado, 20 de outubro de 2012

Avenida Brasil

O médico e a previsão orçamentária da União
Resolvi me submeter hoje ao crivo do meu médico, que é também um amigo pessoal. Constatado o cansaço de várias peças, recomendados os exames de praxe e feitas as admoestações de sempre, avançamos numa rápida troca de ideias sobre a política brasileira, em especial em torno das perspectivas que se aproximam diante de um desfecho que vai me parecendo muito provável na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Não foi preciso muito para que a conversa se desdobrasse para outras dimensões. Como estou ao fim da leitura do livro de André Singer sobre Os sentidos do lulismo (de passagem, um das melhores análises que conheço sobre a conjuntura política brasileira nas últimas duas décadas), não foi difícil chegar a considerações diversas sobre o PT, sobre o próprio Lula, sobre o mensalão etc. 

Chego a dizer que diante dos resultados meio previsíveis da consulta médica, saboroso mesmo foi o bate-papo: se  pudesse, teria ficado ali por um bom tempo, mais disposto ainda quando surgiu no meio da conversa a lembrança dos limites de atuação da presidente da República. Diante das variáveis que atuam como obstáculos para a consecução de uma política de forte amplitude social, que pode devolver ao leito das reformas as propostas eleitorais mais consequentes, D. Dilma dá mostras de disposição de fazer, tantas vezes ela já se dispôs à queda de braços com poderes com os quais outros governantes procuraram conciliar, o Lula inclusive.


Meu médico sacou então de seus arquivos o gráfico abaixo, usando-o como exemplo de uma maldade estrutural de que a sociedade brasileira é vítima e que acaba determinando o alcance da soberania do  Estado diante de qualquer projeto de envergadura popular. Observem:

Quase a metade do orçamento da União confiscada pelo pagamento
dos juros e da amortização das dívidas com os bancos
Não dá para ler todas as informações disponíveis nas fatias da previsão orçamentária de 2012; também não é possível saber se essa previsão foi a que acabou sendo efetivada em Lei. O que é possível perceber - e dificilmente houve qualquer mudança substancial no item - é que 47,19% (isso mesmo: 47,19%) do orçamento estiveram comprometidos com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. É mais ou menos como dizer que metade da riqueza gerada pelos brasileiros - e que se transforma em recursos públicos pelo caminho do fisco - foi garfada pelos interesses privados.

Foi por aí o final da conversa, entre o espanto e a indignação, com a consequente constatação, feita pelo amigo, de que o resultado dessa deformidade é uma brutal transferência de riqueza para um segmento que tem muito pouco compromisso com os problemas mais graves do país.

Em tempo: minha saúde está ótima.
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Ps: Concluí a leitura do livro de André Singer - Os sentidos do Lulismo. É uma obra muito importante para o entendimento do quadro político brasileiro atual. Certamente, em pouco tempo, produzo uma resenha sobre ela. Destaco aqui, no entanto, um pequeno trecho que diz respeito ao espanto que essa disparidade orçamentária mostrada acima provoca:

"Os números indicam que, vista por diversos quadrantes, está em curso uma gradual diminuição da desigualdade no Brasil. Mas se a renda dos assalariados - e particularmente dos mais pobres - está crescendo em ritmo suficientemente acelerado para eliminar a pobreza monetária até o fim da década de 2010, como se explica que a desigualdade caia tão devagar? Uma razão possível é que os ricos também estejam ficando mais ricos. A economista Leda Paulani tem assinalado que 80% da dívida pública está (sic) em mãos de algo em torno de 20 mil pessoas, as quais, sozinhas, receberiam um valor cerca de dez vezes maior que os 11 milhões (na época) de famílias atendidas pelo Bolsa Família".
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Em tempo: sugiro a leitura da matéria publicada no Valor Econômico de 21 de novembro de 2012 sobre o peso que os investimentos sociais (inclusive os destinados ao INSS) passam a ter no orçamento brasileiro, quase desbancando o percentual principal para o pagamento dos compromissos com os bancos (aqui)
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Um comentário:

Arthur Gandini disse...

O Governo Lula fez jus ao seu slogan. O próprio Lula admitia que, se teve dois mandados voltados ao lado social, ajudou muitas empresas também com incentivos do BNDES, por exemplo. Tais empresas lucraram mais do que durante o Governo FHC, aproveitando o crescimento da economia, muito resultante das políticas já mencionadas que estimularam o mercado interno brasileiro.

O resultado é curioso e abordado por jornalistas de diversas preferências políticas: é um esquerdismo pela metade. O aumento da distribuição de renda no Brasil não foi nulo nos últimos anos porque os Governos Lula-Dilma são mais voltados para a área social, mesmo com as suas contradições.