terça-feira, 30 de outubro de 2012

Jornal da Tarde
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JT, 1966-2012
Na imagem, Jânio Quadros - vítima de uma das capas estouradas 
com ousadia gráfica e significação política contundente

O Jornal da Tarde teve pra mim talvez o mesmo peso e importância que a revista Realidade, publicação sobre a qual desenvolvi minha tese de doutorado, posteriormente transformada em livro. Na história da imprensa brasileira, como certamente dirão os inúmeros depoimentos que ficarão registrados nos próximos dias, tanto o vespertino do Estadão quanto a revista da Abril correspondem a impulsos de mudança nos padrões do jornalismo brasileiro que aproximaram os dois - na narrativa e nas pautas que desenvolveram - das mudanças que a sociedade brasileira viveu nos anos 60; uma conjuntura que mesclou as dificuldades impostas pela construção do regime militar e as possibilidades que a modernização capitalista e a diversidade cultural do período permitiam.

Transcrevo abaixo alguns trechos da análise que fiz na tese, naturalmente com apoio em outros autores e em diversos depoimentos de personagens que viveram a época. Vistas as coisas com a perspectiva do tempo, fico tanto entristecido pelo baixo apego que as empresas jornalísticas têm com os seus próprios projetos e produtos - simplesmente destruindo-os ao primeiro sinal da crise -, quanto satisfeito por ter compreendido o significado que o JT teve na própria sociedade: uma prática jornalística consequente que se apropria de padrões de qualidade socialmente construídos, fato que consolida minha crença de que o jornalismo não é território privado, mas dinâmica cultural coletiva (sugiro a leitura dos trechos abaixo e recomendo a consulta ao texto integral para as referências bibliográficas correspondentes às aspas das citações):

Se Realidade estava praticamente sozinha como revista, a mesma coisa não pode ser dita quando se olha para os jornais diários de São Paulo. O exemplo é o Jornal da Tarde.

“Surgido em janeiro de 1966, JT foi para as bancas como um vespertino inovador na diagramação e na linguagem. O novo veículo rompia com a tradição de sisudez de O Estado de S.Paulo, de cujo grupo fazia parte. E o editorial de seu primeiro número falava em 'estilo vibrante, irreverente' para 'atingir um público diferente daquele que, normalmente, lê apenas matutinos, cujo estilo deve ser, forçosamente, mais pesado e prolixo. O Jornal da Tarde vai para a mesma luta, em defesa da liberdade, que é o fim do Homem na sua vida terrena'. Essa generosidade de princípios - traço comum em apresentações de veículos novos e muito semelhante ao de Vitor Civita no primeiro número de Realidade - vinha acompanhada, no entanto, de uma efetiva inovação editorial. A cidade, o lazer, o leitor, o noticiário policial ganhavam destaque e competiam nas manchetes fortes em pé de igualdade com o tradicional noticiário nacional e internacional. Um de seus repórteres, 10 anos depois, testemunhou que "os temas mais populares apareciam na capa com frequência, sobretudo devido ao tratamento nobre que o jornal lhes dava. A notícia policial, por exemplo, era tratada quase que literariamente, como provam as coberturas das andanças do Bandido da Luz Vermelha...

"Mas essa preocupação com o fato puramente popular não afastou o jornal de acontecimentos políticos importantes, como o surgimento da Frente Ampla de Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart no período de maior contestação ao governo Costa e Silva. Assim como esteve atento ao início das crises estudantis (...).

1966-2012
Apadrinhados os dois pela ditadura, Laudo Natel e Maluf se confrontaram nas indiretas para o governo de São Paulo. O JT deixou clara sua contrariedade com a escolha

Como sempre foi um jornal de personagens, ajudou a construir e a manter a imagem dos novos nomes da música popular brasileira que surgiram naquele ano (1967)...".

O JT chegou a ser acusado de procurar um "estilo de vida" e não informar. Veio de Raimundo Pereira (ex-Amanhã, ex-Grêmio Informa, ex-Realidade), no entanto, a definição do mérito do jornal: seu caráter experimental, permitindo ao jornalista manifestar sua criatividade no texto e no conteúdo da informação, mesmo nos limites da grande imprensa. "O sucesso do Jornal da Tarde vem disso, da capacidade de criar dentro de um terreno limitado".

A experiência do JT demonstra que o tratamento do fato jornalístico passava por um processo de enriquecimento mesmo na imprensa diária. E o código narrativo aproximava o jornal de Realidade, mostrando uma tendência: "A matéria que amplia uma simples notícia de poucas linhas, aprofunda o fato no espaço e no tempo e esse aprofundamento (conteúdo informativo) se faz numa interação com a abordagem estilística. A reportagem seria então uma 'narração noticiosa'.

"As linhas de tempo e espaço se enriquecem: enquanto a notícia fixa o aqui, o já, o acontecer, a grande reportagem abre o aqui num círculo amplo, reconstitui o já no antes e depois, deixa os limites do acontecer para um estar acontecendo atemporal ou menos presente. Através da contemplação de fatos que situam ou explicam o fato nuclear, através da pesquisa histórica de antecedentes, ou através da busca do humano permanente no acontecimento imediato - a reportagem leva a um quadro interpretativo do fato.

"A narração torna-se indispensável: do relato direto, descritivo, numa estrutura hierárquica quase sempre padrão, por causa da concisão da notícia, a elaboração da reportagem precisa de técnica de narrar. Foge-se aí das fórmulas objetivas para formas subjetivas, particulares e artísticas. O redator não tem à disposição recursos prontos, mas passa a criar. Nesse momento, só se diferencia do escritor de ficção pelo conteúdo informativo de sua narração, por isso narração noticiosa."

Eram esses os traços marcantes do JT, em tudo semelhantes ao que faziam os jornalistas de Realidade, embora como jornal diário, o vespertino não dispensasse um conjunto de matérias de conteúdo exclusivamente informativo. Essa simetria de propostas entre as duas publicações - cujo eixo pode ser resumido na busca dos elementos universais humanos na dinâmica dos fatos particulares, extraindo deles sua significação social - dava a perspectiva do momento cultural vivido pelo país.

Era a mesma raiz de inventividade, de radicalismo, de mudança de padrões de comportamento, e o jornal refletiu isso em suas formas, abandonando o convencionalismo dos códigos do jornalismo informativo e partindo para a elaboração de "alguma coisa que seria um misto entre um jornal diário e uma revista semanal".

Segundo Mino Carta, o primeiro editor-chefe do jornal, posteriormente diretor de redação de Veja, havia dinheiro e carta-branca para contratar os melhores profissionais. O resultado foi uma ousadia, como depõe Ivan Ângelo: "Na diagramação, os próprios editores (não os diagramadores, não os diretores de arte) desenhando, inventando, experimentando, como artistas visuais. Na reportagem, a valorização da visão pessoal do repórter, trânsito livre para o texto mais literário.

Na reportagem policial, fim do jargão, estímulo às histórias no estilo de contos e romances policiais. Sustos na Imprensa: todo mundo trabalhando num só assunto, como na trágica tromba d'água de Caraguatatuba; um suplemento inteiro para o primeiro transplante de coração feito no Brasil; viagens pelos quatro cantos, descobrindo ou redescobrindo brasis, como a travessia da Transamazônica; briga contra o governo já no primeiro ano, como a manchete (...) Ditador quer calar a Imprensa (...). Fotos abertas acintosamente. Uso e abuso de ilustrações, desenhos. A capa diagramada como um cartaz"Refletindo sobre sua própria história, 25 anos depois de ter nascido, o JT colocou na cena da imprensa brasileira um novo personagem: o repórter investigativo, "isto é, com um código de ética marcado pela repulsa ao autoritarismo ou à manipulação dos poderosos".

☞ Leia também os registros publicados sobre o JT:

Réquiem para um jornal que nunca existiu. Sandro Vaia (Observatório da Imprensa).


Com o fim do Jornal da Tarde, o sinal de que jamais veremos uma primeira página como aquela. Mauro Cézar Pereira (ESPN).

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