quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As storytellings chegam à produção acadêmica

Beatrice Potter e seu coelho, numa foto provavelmente de 1910
(via Retronaut)

O jornal Le Monde, num artigo assinado por Christian Salmon em novembro de 2006, trouxe para o público uma constatação curiosa: a chegada das storytellings na esfera da política e dos negócios.   Trata-se de um tipo de narrativa com a qual os estadunidenses já se acostumaram, entre outras coisas porque têm o poder do relaxamento compreensivo, isto é, histórias que transformam o duro mundo da realidade em gags semi ou quase-engraçadas, construídas a partir de experiências pessoais contadas de um jeito informal. Salmon afirma que se trata de um método "que procura reduzir questões complexas a histórias de vida e que, depois de conquistar a Casa Branca", vem se espalhando de maneira incontrolável na direção de todos os espaços.

Acho que a constatação é verdadeira, mas o fenômeno não é recente; ele se parece com um deslocamento dos sitcoms das séries de tv para os discursos do cotidiano, tanto na simplificação que o constrói quanto na espirituosidade com que essas histórias são contadas. Vendedores, políticos, artistas, apresentadores de talk shows, homenageados de todos os tipos nas mais diversas situações, todos vêm lançando mão do recurso que funciona como um apaziguamento da audiência. Basta uma pequena e inteligente brincadeira e as possíveis bobagens e despautérios que vêm a seguir acabam tendo seus efeitos minorados. Uma situação que lembra um pouco o professor que diante de uma difícil dúvida de um aluno saiu-se com esta: "sua pergunta está tão bem feita que eu prefiro não respondê-la". Evidentemente, a classe se dobrou em gargalhadas, mas o professor escapou do constrangimento de demonstrar que não sabia a resposta.

Pois eu acabo de ler o livro de Sylvia Nasar - A imaginação econômica. Gênios que criaram a economia moderna e mudaram a história -, e cheguei à conclusão de que as storytellings desembarcaram não propriamente na sociabilidade da vida acadêmica - já que é muito difícil exigir sisudez o tempo todo -, mas no espírito da narrativa científica, construída nem sempre com o propósito de um texto de bom gosto, sutil e frequentemente irônico e mordaz (coisa que a nata intelectual das melhores universidades dos Estados Unidos e da Europa sempre fez), mas com a maldade  oculta de espalhar pelos sentidos que a narrativa vai construindo uma depreciação do objeto ou a sua superestimação, naturalmente com o prejuízo do rigor científico, que é o que se espera de um pesquisador.

Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o livro vem sendo tão festejado em alguns círculos, neste caso, o dos que apreciam Nasar, professora da Universidade Columbia e autora de um outro sucesso no campo das letras - Uma mente brilhante - aquele mesmo que virou um belo filme sobre a vida do matemático John Nash. Outra roda que reverencia a autora é a dos jornalistas que trabalham com economia, certamente vários deles com uma dor-de-cotovelo provocada pelo sucesso editorial da obra e pelo deciframento de questões complexas que eles próprios não sabem como interpretar ou não conhecem. O último círculo de admiradores de A imaginação econômica, no entanto, me parece o mais importante: o dos que acreditam que o grande embate e desafio das formulações teóricas e aplicadas da Economia é a ameaça representada pelo retorno de John Maynard Keynes como guru da salvação do capitalismo via regulação do Estado.

Posso estar enganado, mas me parece que este é o objetivo central do trabalho da professora de Columbia: o destronamento de qualquer utopia planificadora da economia de mercado a partir de um ataque sistemático aos seus fundamentos, sejam eles marxistas ou liberal-heterodoxos. Sylvia Nasar estabeleceu para si uma hipótese e é em torno dela que acredita que a economia moderna gira: a razão primordial da geração da riqueza está no convívio social e político com o desequilíbrio que a própria geração da riqueza provoca, e a ameaça que esse processo sofre vem de todos os lados. Nesse sentido, o livro é aquilo que se pode chamar de uma obra-manifesto. Depois da crise de 2008 - que ainda está longe de acabar -, do escandaloso descontrole global do capital financeiro, dos protestos internacionais contras as medidas ortodoxas e monetaristas que procuram preservar os bancos e desconstruir o Estado, o trabalho de Nasar é pura música para um largo segmento de formuladores das políticas econômicas.

O livro é tudo isso, mas é enganoso porque os argumentos da autora seguem a linha da retórica do bom gosto que inspira as storytellings. E o encantamento que o estilo provoca obscurece e desloca a demonstração científica da tese, se é possível imaginar que a hipótese da autora permaneça solta no ar de ponta a ponta do trabalho porque não há - ou há muito pouca - evidência de fatos relacionados com ela. Não é o meu objetivo mapear os momentos da obra em que isso ocorre, me contentando aqui em apontar o vício metodológico que responde por esse desequilíbrio do livro:  a dimensão do despropósito que essa oscilação entre intenção (descanonizar os mitos do pensamento econômico heterodoxo) e gesto (confundir a crítica não com a desconstrução do mito, mas com a sua desqualificação entre o irônico e o debochado). No final das contas, da leitura do livro de Sylvia conclui-se que as doutrinas econômicas são obra de caprichos pessoais e eivadas de uma subjetividade que só encontra respaldo no brilho formal do texto - e na criatividade com que o analista preenche as lacunas que vão surgindo o tempo todo.

Em tempo: Beatrice Potter (que ilustra a postagem), surgida na obra de Nasar como a inspiradora do Estado do Bem-Estar Social britânico, é a patronesse de um projeto que no livro só se explica pela natureza amorosa de sua adesão às ideias de Joseph Chamberlain, o pai daquele que seria o ministro a negociar com Hitler. Essas narrativas...

* Leia uma entrevista e dois artigos que foram publicados no Valor Econômico sobre o livro de Sylvia Nasar - A imaginação econômica. Gênios que criaram a economia moderna e mudaram a História: ☞ Entre a esperança e o espectro da revolução ☞ Uma ideia vencedora, sem vez para os críticos ☞ Como a teoria deixou de ser uma "ciência sombria"

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