sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Como se nada estivesse acontecendo...


Os deuses malditos, de Visconti: uma alegoria sobre o poder como alienação da realidade
Uma das cenas mais pungentes de Os deuses malditos, de Luchino Visconti, é aquela do casamento  entre o simpatizante do Partido Nacional-Socialista de Hitler,  representado por Dick Bogard, e a herdeira do império siderúrgico da família Von Essenbeck, com Ingrid Tulin no papel. Alguns críticos dizem que Visconti, nesse filme, buscou dar forma estética à origem do mal. Embora eu concorde com isso, acrescentaria mais uma dimensão aos significados da obra - o da alienação da realidade como decorrência de um processo de perda de valores, ausência absoluta de referências éticas ou políticas. No lugar disso, apenas o poder como alimento. Penso que o nazismo foi também isso.

A cena reproduzida acima traduz o que estou procurando dizer. A cerimônia é uma exposição cruel do maceramento dos personagens que vivem a sua própria decadência e o ambiente que os cerca reproduz e aprofunda o caráter transido de algo que perdeu qualquer legitimidade. Ainda que seja pública, no aspecto civil, é clandestina (no sentido de encoberta) para a norma moral, com sua visibilidade desprovida de energia vital ou, como diz o Michaellis, um estado de "mortificação do corpo", circunstância que Visconti coloca na própria expressão facial de alheamento dos personagens principais da cena.

Como se nada estivesse acontecendo...
Essa pequena reflexão me é provocada pelo triste episódio que está marcando o dia de hoje na PUC-SP: a posse da professora indicada para o cargo de reitora à revelia do sentimento geral de repulsa que a decisão da Fundação São Paulo provocou. Evidentemente, o episódio não tem toda a envergadura trágica exposta no filme de Visconti, mas traduz um arquétipo universal (ainda que em ponto menor) - o da pretensão da Igreja em escrever a História, apesar das circunstâncias social e politicamente adversas. Uma espécie de descaso que alimenta a ilusão de que o poder permite que se faça qualquer coisa, a húbris.

Penso que o resultado é o pior possível, inclusive para seus protagonistas. No caso da Universidade, no entanto, ele não é apenas ruim, difícil para o convívio futuro de correntes diferentes de pensamento; ele está "fora do lugar" dada a sua impropriedade no âmbito da academia; a sua natureza é outra. Falta inteligência ao cardeal Scherer e falta sensibilidade à Profa. Anna Cintra, pois que ambos estão se prestando a um papel que só encontra justificativa na insistência com que os dois ignoram a gravidade do que estão fazendo.

Não pretendo voltar a um assunto que já me ocupa a terceira ou a quarta postagem, mas torço para que esse movimento de professores e alunos resista e se amplie, inclusive com a adesão de outras instituições universitárias. É uma pequena chance que a sociedade tem de fazer valer a sua soberania.

* Sobre o filme de Visconti, sugiro a leitura do comentário de Luiz Carlos Merten publicado no Estadão. Para uma análise em profundidade da filmografia do cineasta italiano e suas relações com a crítica da História, recomendo o trabalho de Michèle Lagny, da Universidade Federal de Santa Catarina, cuja cópia integral pode ser acessada aqui. Sugiro ainda o acompanhamento dos acontecimentos na PUC-SP no dia de hoje (30/11) aqui.
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