segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Leão do Morro versus Combinado da Vila: 23 x 1

O Leão do Morro na foto tirada antes do 23 a 1 sobre o meu Combinado da Vila.
Na fila de trás, da esquerda para a direita: Zuinho, Xereca, Sebão, Adriano, Toludo e Xulé. Na fila da frente, também a partir da esquerda: Pacau, Niloca, Mijão, Suvaco e o goleiro Camurça.
Um dia desses eu conto o que o destino reservou para todos eles.

Para o Ailton

Foi assistindo à partida entre Palmeiras e Flamengo, no meio daquelas cenas chorosas pela queda do verdão, que me lembrei da memorável partida que o meu time de rua e do terrão da várzea - o Combinado da Vila - perdeu para o Leão do Morro. Digo memorável porque nossa derrota figura entre aqueles acontecimentos definitivos do futebol. Imagino que se tomou conhecimento dela, Nelson Rodrigues, tal como Kant quando soube da Revolução Francesa, não saiu para caminhar no calçadão de Copacabana.

O ano era o de 1969. Época difícil aquela, como todos imaginam. Mas entre as tarefas da militância política, as aulas na faculdade e o trabalho, ainda sobrava tempo para um relaxamento geral nos fins de semana, quase nunca dedicado ao futebol. Na Boca da Bruxa ninguém sabia jogar bola: éramos um bando de pernetas de origem social variada e de vícios plurais - entre o cigarro, a cerveja e o rafs marroquino com aquele cheiro inesquecível de mato queimado. Não tenho a menor ideia de como surgiu a proposta de formar um time. O que eu sei é que ajeitamos um jogo de camisas já desgarçado, encardido; umas chuteiras detonadas em outros pés e fomos à luta contra o Leão do Morro num "campo" de terra vermelha perto da reitoria da USP. Um domingo cedo...

Não dá pra contar aqui todos os preparativos do jogo. Encaramos aquilo como uma redenção dos nossos maus hábitos e como o início de uma vida saudável. Preparamos a arquibancada, convidamos o "seu" Wilson Fonseca da farmácia para apitar o jogo, ajeitamos as máquinas fotográficas (a Rio400, lembram dela?) bebemos um pouco menos na noite do sábado e saímos ainda de madrugada confiantes de que, sem treino algum, era o sentimento de equipe o nosso principal trunfo. Raça. Não havia a menor compreensão de esquemas táticos ou das posições dos jogadores. Eu mesmo, que nunca havia jogado bola antes, me apossei da banheira da área adversária e fiquei plantado ali na suposição - que se revelaria correta - de que a atenção voltada para a chegada da bola vinda de algum lugar me facilitasse o toque que levaria aos gols.

O que ninguém esperava é que D. Lindalva Fonseca, a fogosa esposa do juiz, fosse ao jogo. D. Lindalva era uma mulher cadeiruda, com umas coxas fartas, peitos idem, cabeleira preta, sempre aprumada e exibida dentro de uns tubinhos acima dos joelhos feitos com essas malhas que sobem pelo corpo com o simples andar. Pois D. Lindalva entra no "campo" pela porteira principal, chacoalhando tudo aquilo no meio da poeira vermelha e se dispõe a subir as arquibancadas em busca de um bom lugar para apreciar a partida. Cada degrau de madeira, cada subida do tubinho rosa; cada subida do tubinho rosa, mais um rebolado provocante da mulher do farmacêutico; mais um degrau, mais um pedaço de coxa. A garotada de hoje que transa todo dia não tem ideia dos efeitos telúricos desse cenário na alma de cada um e da dinâmica catalisadora que a esposa do farmacêutico teve no imaginário de todos aqueles que naquela manhã testemunharam a batalha contra os atletas do Leão do Morro...

Quando D. Lindalva chegou ao "campo" o jogo já havia começado, mas o exercício dela na subida dos degraus da arquibancada embaralhou a percepção dos jogadores, voltados todos para os movimentos da moça sob o olhar enciumado e meio despeitado do juiz, seu marido, disposto a botar ordem na partida com apitadas intermitentes tocadas a esmo. Aquele sol vermelho sobre a terra vermelha, uma temperatura elevadíssima, a gritaria, tudo faiscando... essas são as imagens das quais me lembro quando a bola veio na minha direção lançada pelo alto por algum companheiro que percebeu a desatenção geral com a minha clara posição de impedimento. Todo mundo olhando para a gostosa da D. Lindalva e eu ali tentando caprichar no chute que acabou nem sendo necessário: a bola bateu na minha canela sem que eu me desse conta disso e entrou no canto esquerdo do goleiro. Só o bandeira viu e, confuso, também ele eriçado com as pernas da única mulher presente no "campo", validou o tento, mesmo estando eu mais adiantado que o próprio Camurça - o goleiro do Leão. Um a zero... anotado com giz num pedaço de madeira feito placar, bem visível pra todo mundo...

Marco Pezão
A bola gera sonhos na infância
e recordações por toda vida, diz ele
Não houve argumento que fizesse "seu" Wilson anular o gol, tomado pela raiva daquela humilhação sofrida ali debaixo do sol. Nem houve força que conseguisse deter a ira do Leão do Morro, uma equipe inteira disposta a ir à forra contra o gol impedido. Devo ter jogado mais uns cinco ou 10 minutos até deixar o "campo" esturricado e empoeirado; cansado, mas com aquela sensação de vitória que só o centro-avante vive. Centro-avante e artilheiro, diga-se, pois o gol impedido - só possível pela eletrizante D. Lindalva - foi o único toda a história do Combinado da Vila - que só parou de levar gols aos 42' do segundo tempo, quando o juiz, certamente com o saco cheio da brincadeira, apitou o fim do jogo. Resultado: Leão do Morro, 23 x Combinado da Vila, 1.

Foi a minha primeira, única e última partida de futebol. Não é verdade que os torcedores do Combinado botaram em alguma praça da Vila Beatriz, na perigosa fronteira que faz com a Vila Madalena, um busto em minha homenagem - o artilheiro do gol solitário de toda a curta história daquele time fugaz e priápico, que estreou, brilhou e morreu num único domingo. Depois daquela goleada, ninguém queria ouvir falar do jogo e ninguém se arriscaria a propor a reorganização da equipe, nem mesmo com a promessa das visões que D. Lindalva nos dava e das fantasias manuais que nos permitia.

Vale a pena navegar um pouco no blog Futebolando, mantido pela extraordinária figura de Marco Pezão. A crônica que lembra a figura de Dorinho, considerado o maior craque do futebol de várzea, morto aos 66 anos, é de arrepiar (aqui).
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