quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PUC-SP: greve em defesa do patrimônio moral. Onde já se viu uma coisa dessas?

Tradução livre: os professores não podem
resolver todas as dúvidas, mas...
Se a greve na PUC-SP terminasse hoje sem qualquer solução para o impasse criado com a nomeação de Anna Cintra para reitora, mesmo assim o movimento de professores, alunos e funcionários já seria vitorioso. Não porque a paralisação das atividades tenha adquirido uma adesão raramente observada, nem porque a comunidade da Universidade Católica viveu dias de uma experiência coletiva que certamente vai ter consequências durante muito tempo, muito menos porque os saudosistas possam imaginar um revival dos anos 60. Por nada disso.

Digo que a greve já seria vitoriosa pelo simples fato de que ela tem representado um arejamento geral no meio acadêmico - já quase esquecido (convenientemente para seus mantenedores) de que a Universidade é um espaço de tolerância, pluralidade, contestação, democracia, reflexão e experimentação. Esse é um conjunto de atributos que a violenta privatização do ensino superior ocorrida no Brasil, com a consequente instrumentalização mercantil de todos os cursos - nas mãos de boa parte desse empresariado sem responsabilidade social alguma com o seu próprio negócio - quase faz desaparecer. No final das contas, no entanto, quando ninguém mais imagina ser possível um gesto de indignação que quer resgatar aqueles valores essenciais, explode na PUC-SP um movimento que me parece ter uma envergadura absolutamente inusitada.

Os professores não estão em greve por questões trabalhistas (embora a Fundação São Paulo tenha dívidas salariais acumuladas com eles e já reconhecidas na Justiça); nem os estudantes estão em greve por conta das carências materiais e didático-pedagógicas que toda PUC-SP vive; nem tampouco os funcionários apoiam o movimento por melhores condições de trabalho (ainda que a crise financeira da instituição espalhe seus efeitos por toda a sua administração). Professores, alunos e funcionários estão em greve por muito mais que isso: exigem que sua decisão na escolha do reitor seja respeitada pela Igreja e, por isso, põem acima das tradicionais demandas grevistas a autonomia universitária legítima - e não esse arremedo que vem sendo alegado pela própria Fundação para justificar a arbitrariedade que praticou ao ignorar o resultado das eleições de outubro.

Na reunião do Conselho Universitário realizada ontem (leia aqui), que culminou com uma decisão animadora para o movimento, foram os estudantes de Direito (certamente também como resultado do seu amadurecimento acadêmico orientado pelo corpo docente do curso) que surpreenderam aqueles que ainda não haviam entendido muito bem o que estava acontecendo. Lançaram mão de uma tese maravilhosa: a indicação de Anna Cintra - a 3a. colocada nas eleições  - fere o patrimônio moral da PUC-SP e justamente por isso deve ser rejeitada - não propriamente por ser ilegal, mas por ser o resultado ilegítimo de uma prática arbitrariamente protegida pela norma. Transformada em Tcc, mestrado ou doutorado, a argumentação merece um dez com louvor...

Patrimônio moral... fico me perguntando se alguma vez aquelas universidades particulares descomprometidas com a sua própria natureza, várias delas useiras de práticas anti-éticas para atingir seus objetivos (manipulação do ENADE, das informações sobre o PROUNI, dos Planos de Carreira, a desqualificação dos cursos, o descaso com a produção científica), se indagaram sobre o seu  patrimônio moral (além da sua obsessão pelo patrimônio financeiro). Supondo que esse fosse o critério eliminatório das avaliações do MEC para que essas escolas mantivessem seu credenciamento, e teríamos uma surpresa com o reduzido número das instituições em condições de discernir para que serve a Universidade e quais os métodos gerenciais (como gostam de conceituar aqueles que andam com o lápis atrás da orelha) devem usar para atingir esse objetivo.

Não é conveniente alimentar qualquer ilusão sobre os desdobramentos da greve na PUC-SP. Daqui a pouco, por algum caminho sempre inesperado, alguém encontra uma solução de compromisso, as maiorias dão um leninista passo atrás, o cardeal mune-se da inteligência que lhe faltou até agora, e tudo volta ao normal, mesmo que seja em 2013. Ainda assim - com essa fria compreensão de que há um leito para o qual correm todas as forças - fica a expressão de desejo e de utopia que a velha PUC-SP foi capaz de inspirar a todos aqueles que se preocupam com o empobrecimento da Universidade brasileira, em especial o seu segmento empresarial. Patrimônio moral... pois sim... inteligente esse pessoal da pontifícia...
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