quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Puc

Refratária à luz, que não condescende à clareza das  ideias, ao convívio com a diversidade,
tudo o que uma Universidade não deve ser... e certamente não será...
Em diversas situações recorri a um lugar comum para expor aos meus alunos a dimensão da metáfora filosófica que a palavra luz tem. É um exercício meio óbvio que faço com o pessoal da graduação nas escolas onde leciono, mas percebo que o resultado é sempre muito positivo: a imagem de um deslumbramento com a cultura, com o conhecimento científico, com a redução dos preconceitos e com o desarmamento do espírito diante de novas reflexões. Como convivo com estudantes de jornalismo, percebo que já há neles uma certa disposição otimista em permitir que a sua própria prática profissional acabe sendo um instrumento daquilo que a metáfora quer dizer...

Essas ideias todas parecem estar presentes na forte reação que se seguiu à decisão do cardeal D. Odilo Scherer de indicar Anna Cintra para reitora da PUC-SP. Tendo sido dos integrantes da lista tríplice submetida ao Grão-Chanceler da universidade a que menos votos recebeu da comunidade, a nomeação da professora foi encarada por uma grande parcela professores, estudantes e funcionários como uma afronta à legitimidade da eleição, ainda que a decisão do cardeal esteja respaldada pelo regramento jurídico da PUC-SP. É o jogo-jogado: em nenhum lugar está escrito que uma lista tríplice obedece a  qualquer hierarquia de preferência, exceto pela ilação que o que é legítimo permite. Nesse caso, um outro jogo é jogado pois não há como divergir do sentimento de repulsa que a decisão do Grão-Chanceler provocou - ela representa a quebra de uma tradição política construída na PUC-SP, um dos fatores que explicam porque o que acontece ali tem repercussão nacional no âmbito científico, educacional e... político.

Decidindo o que decidiu, D. Odilo Scherer cresce na sua pequenez, carrega com ele os oportunistas e carreiristas à espreita de uma chance dessas, e agiganta a pobreza do espírito obscuro que marcou a história da Igreja Católica em várias oportunidades. Não fossem os protestos, a greve, a ocupação da reitoria, seu arbítrio (legal, mas ilegítimo) a PUC-SP estaria ao lado daquilo em que se transformou boa parte das universidades privadas brasileiras - verdadeiros desertos do pensamento crítico.

O Grão-Chanceler tem muito o que aprender. Pude testemunhar o efeito que teve no mundo intelectual a recusa dos professores da Universidade Sapienza, de Roma, em permitir a aula inaugural de seus cursos que seria proferida por Bento XVI, se não estou enganado no ano de 2008. Sabendo do fato, o Papa, naturalmente, recusou-se a comparecer, mas distribuiu à imprensa o conteúdo de sua fala, uma das mais saborosas lições de tolerância com a divergência que já li, em que pese o fato de que tenha sido escrita por um dos teólogos mais conservadores da Igreja. D. Odilo Scherer bem poderia fazer um estágio no Vaticano e tentar entender que ventos são esses que estimulam a luz ao invés de apagá-la. Não é tão difícil. Se preferir, pode assistir algumas aulas na própria PUC...
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2 comentários:

Bruna Lança disse...

Texto incrível, o que era de se esperar devido as aulas que tive o prazer de ter com você Professor Faro. Cada vez mais tenho orgulho de ter sido aluna do jornalismo da PUC-SP e ter tido aula com pessoas como você, Miele, Arbex só para citar alguns. Graças a pessoas como vocês, que mantêm o pensamento crítico no curso de jornalismo e também em outros cursos, hoje os alunos estão se mobilizando para impedir essa arbitrariedade dentro da nossa universidade. Força, luta. Vamos continuar fazendo da PUC o melhor dela: uma universidade diferente das outras.
Abraços.
Bruna Lança

Ana Beatriz Camargo disse...

Oi, Professor Faro. Aqui quem fala é Miss Clooney! (Haha) Saudade das suas aulas.

Gostei bastante do seu texto. Tive essa discussão do legal x legítimo com meus colegas da TV PUC e chegamos à mesma conclusão. Das mais de quinze entrevistas que a TV fez para a cobertura dos protestos, uma delas levantou uma bola que eu ainda não tinha refletido sobre: será mesmo que todos os outros reitores foram escolhidos porque foram os primeiros da lista? Ou eles eram também - e antes de qualquer outra coisa - os preferidos da Fundasp?

Essa questão me deixou com a pulguinha atrás da orelha e preciso investigar mais as relações entre reitores e os Chanceleres.

Bom, compartilho com você o post que fiz no meu blog sobre o ocorrido e a reportagem que ajudei a produzir p/ TV PUC.

Beijos!

http://declarando.blogspot.com.br/2012/11/puc-sp-para-em-processo-de-eleicao-para.html

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UcqYrbjYQPM