sábado, 23 de fevereiro de 2013

As agências de rating e o jornalismo econômico

Agências constituem um setor meta-econômico que contamina a percepção que o jornalismo tem do setor
Faz muito tempo que a credibilidade das agências que ranqueiam (também chamadas de agências de avaliação de riscos ou de risco simplesmente) as diversas atividades da economia mundial vem sendo posta em dúvida em vários níveis. Algumas são acusadas de envolvimento escuso com os lucros de congloemerados financeiros, o que as teria levado a supervalorizar as "notas" atribuídas a eles - o que, obviamente, asseguraria padrões de investimento de aplicadores e a manutenção dos seus ganhos. Digo "envolvimento escuso" porque com as agências acontece mais ou menos o que acontece com todos os mecanismos de avaliação de riscos: não podem avaliar o que eles próprios fazem... É simplesmente desonesto.

Bem... o capitalismo não é exatamente um sistema que prima pela honestidade e coerência, principalmente o capitalismo financeiro. Recentemente, o jornal português Público noticiou as relações espúrias e quadrangulares que se formam entre as agências, os bancos, as empresas e o Estado ao informar sobre uma curiosidade eticamente impensável: a agência Moody's rebaixou a nota de sua congênere e rival Standard & Poor's depois que o governo dos Estados Unidos processo esta última pela manipulação deliberada das avaliações atribuídas a empresas nas quais ela - a Standard & Poor's - tinha interesses diretos. A fraude agravou a crise econômica mundial e induziu os investidores a erro, com as consequências negativas que o fato teve para o Tesouro estadunidense (leia aqui a matéria do jornal português). Ou seja: essas relações denunciadas revelam uma contaminação geral do sistema econômico e só mesmo um desavisado é que ainda leva a sério o que dizem as agências de rating.

No jornalismo econômico, no entanto, nada disso parece importar. Os relatórios da Moody's, por exemplo, continuam alimentando matérias inteiras e, ao que tudo indica, incidindo sobre as decisões dos gestores da economia - os públicos e os privados -, criando uma tal rede de insegurança e de instabilidade que é difícil acreditar em recuperação econômica. É o caso da matéria publicada no Estadão de hoje (aqui) dando conta de que a agência de risco rebaixou a nota da Grã-Bretanha em razão do "crescimento fraco" da economia do país. Vale a pena, no entanto, observar de perto, o que diz a notícia para se perceber que quem escreveu a nota ou não entendeu o que a Moody's fez ou distorceu os fatos por pura preguiça de analisá-los com cuidado.

O Reino Unido desfruta da mais elevada nota de credibilidade no mundo inteiro. Até essa avaliação referida pelo Estadão, era AA1; agora, passa a AAA e ainda se mantém como a mais elevada. A mudança entre um resultado e outro é tão pequena que a própria agência se encarregou de esclarecer que "a qualidade de crédito (do país) permanece extremamente alta, com o rating AA1", em razão de fatores como "uma economia altamente competitiva e bem difersificada, um histórico forte de consolidação fiscal e uma estrutura institucional robusta etc etc etc...". Ou seja, a manutenção dessas virtudes da economia inglesa, no cenário europeu e internacional, é que devem ser destacadas e não a ideia de "rebaixamento" que inspira a matéria.
______________________________

Um comentário:

Arthur Gandini disse...

Gostei do texto professor, trabalhei 6 meses no ABCD Maior como jornalista econômico e percebi que é a editoria mais díficil de um jornal, devido a dificuldade de interpretar dados, números, projetos de lei etc para, só depois, poder contar o fato ao nosso interlocutor.
A notícia do Estadão é uma prova da preguiça de apurar de muitos jornalistas que se agrava no jornalisto econômico, seja pelas dificuldades mencionadas ou pelo forte interesse público da editoria.
Acredito que fica como reflexão, pensando nas agências de risco, a diferença dos jornalistas que se importam em avaliar a credibilidade de uma fonte e entre os que encaram o jornalismo como uma produção de informações possivelmente fictícias, como se exercessem uma profissão como qualquer outra, sem responsabilidades