quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Itália: desastre eleitoral

Resultados das eleições italianas deixam o país e a Europa
à beira do colapso 
(ilustração Brasil I.P.E)
Os resultados dramáticos das eleições italianas me deixam lembrar as leituras que fazíamos no início dos anos 70 da obra de Nicos Poulantzas, Fascismo e Ditadura, em busca de explicações consistentes  sobre a emergência de governos totalitários de direita em países de forte tradição parlamentar. Até mesmo para entender as ditaduras da América Latina - entre elas a brasileira - a análise do sociólogo grego era importante: no final das contas, era sempre na crise de hegemonia dos setores liberais constitutivos do arco partidário, na sua incapacidade de oferecer respostas para o agravamento dos problemas econômicos e na inviabilidade alianças que residia a abertura de espaço para a aventura totalitária - vista pela sociedade civil fragilizada e cansada como uma alternativa salvacionista.

Nem todos as variáveis usadas por Poulantzas para sua análise estão presentes no momento atual em  qualquer país, mas é sintomático que a fragmentação e a dispersão do quadro político-partidário italiano tenha deixado um vazio de poder, uma tal crise de representação, que não seria surpresa se um projeto aparentemente desideologizado, que acenasse aos italianos com o rigor do Estado e apelasse para o sacrifício das liberdades públicas - um governo autoritário-conservador alinhado com as correntes financistas do capitalismo global, acabasse empolgando a opinião pública do país e a própria Europa.

Meu interesse pela política italiana tem dois motivos. O primeiro deles está relacionado com a manutenção, o equilíbrio e o desenvolvimento do processo de integração europeia - na minha opinião a obra de engenharia política mais ousada da social-democracia no pós II Guerra. O fracasso italiano em encontrar uma direção democrática para a solução da crise econômica que o país vive - como de resto também acontece com outros integrantes da CEE - põe em risco a unidade do velho continente e abre caminho para as tendências que apostam no retorno do predomínio das unidades nacionais e do capitalismo desorganizado sobre o espaço supracional e o Estado do Bem-Estar Social. O segundo motivo é mais simples e mais subjetivo: sou eleitor italiano e simpatizante dos grupos de centro-esquerda, como é o caso do Partido Democrático de Bersani. 

Penso que o desastre sinalizado pelos resultados das eleições deve ser acompanhado com muita atenção não só porque ele diz respeito a dinâmicas globais que têm muito a ver com a própria realidade brasileira, mas como elementos sintomáticos de uma crise política em profundidade cujos efeitos invariavelmente - em qualquer período histórico, como ensinou Poulantzas - culminam na perda de direitos e da autonomia democrática.
______________________________

Sugiro as seguintes leituras de matérias (todas publicadas pelo jornal espanhol El País) para o entendimento do significado das eleições italianas e do desdobramento imediato de seus resultados:
______________________________

Nenhum comentário: