sábado, 23 de fevereiro de 2013

Clarice Lispector e Mineirinho

Lispector: sensibilidade social e estética
Dia desses reli a crônica Mineirinho que Clarice Lispector escreveu para a revista Senhor em junho de 1962. É um dos melhores textos da autora e está entre as mais expressivas crônicas publicadas por aquela que considero um dos paradigmas da modernidade na imprensa brasileira (leia aqui o texto na íntegra publicado no blog Colecionador de pedras). Aliás, a presença de Lispector entre os colaboradores da revista - a maioria deles sintonizada com novas formas da expressividade narrativa que a sociedade brasileira, parida do tradicionalismo agrário e do conservadorismo patriarcal e católico, começava a encontrar - é um sintoma desse processo. 

Mineirinho é uma crônica que enrubesce ainda hoje pois trata do desconforto que a nossa sociabilidade caótica e contraditória, que faz conviver sem diálogo os mais expressivos frutos do desenvolvimento tecno-industrial com os mais retardados sinais do atraso colonial, provoca. Clarice Lispector está às voltas com o incômodo que lhe dá a morte de um bandido executado com 13 tiros (leia a notícia aqui). Como não consegue oferecer racionalidade plausível para o fato - uma busca impossível para um espírito como o de Clarice  - a escritora (aqui na condição de cronista do cotidiano), revela "precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las". "Os fatos, diz ela, são irredutíveis, "mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta".

Eis aí, em toda a plenitude da subjetividade da autora, o conflito que desorganiza a atividade do cronista pois que o olhar com o qual investiga e revela a realidade que observa não se confunde com a simplificação dos fatos da objetividade noticiosa - o que provoca a humanização do bandido, resgata sua humanidade ("o décimo-terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro") e desorganiza o texto - que agora já é resultado de "sensações contraditórias". É a própria Clarice quem nos diz logo à frente que o entendimento (a consciência) é o desarticulador da ordem, processo que só se aplaca quando nos reduzimos à condição de "sonsos essenciais", o sono, o abandono, o esquecimento... estados impossíveis para o cronista, para qualquer cronista, muito mais para Lispector.

Mineirinho é uma lição de força narrativa, de beleza literária e de contundência existencial...
______________________________

* Um dos estudos mais completos sobre a crônica Mineirinho é a análise de Yudith Rosenbaum, publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, disponível no SciELO Brasil (aqui).
______________________________

Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns, prof. José Salvador, pelo excelente comentário crítico. Conheço esse conto de Lispector, um dos melhores! Atualíssimo no que se refere à desintegração dos valores atuais e suas contradições. Como seria se fosse escrito hoje? Clarice Lispector surpreenderia novamente, pois sempre andou a frente de seu tempo por entender profundamente as coisas.
Solange frigatto.