domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um bom professor, o que é?

 Escultura de Matteo Pugliese
Numa postagem minha no twitter feita hoje prometi um sorvete a quem conseguisse me explicar o que quis demonstrar o economista Gustavo Ioschpe no artigo Como identificar um bom professor publicado na revista Veja de 13 de fevereiro (reproduzido aqui). Li o texto algumas vezes para ver se percebia alguma linha coerente de exposição mas tudo o que encontrei foram dados aleatórios dispersos em "estudos" que o autor cita em profusão, embora com pouca propriedade - uma colagem de pequenos registros que, como acontece muitas vezes na Veja, são magros em informação e fartos em opinião. Vencido o mal-sucedido desafio da leitura, ficou a impressão de que Ioschpe esteve diante de um teclado com um personagem na cabeça, mas sem que ele próprio pudesse ser o autor a dar crédito ao assunto. Cito dois exemplos desse vazio sobre o qual a "análise" é feita.

O primeiro decorre de um truísmo e de uma afirmação difícil de ser generalizada: depois de dizer que "um bom professor exerce influência substancial sobre seus Alunos" (o truísmo), Ioschpe recorre a Eric Hanushek (?), de Stanford, para concluir que "um professor que esteja entre os 25% do topo da categoria e que tenha uma turma de trinta Alunos gera, a cada ano, um aumento da massa salarial desses Alunos  de quase 550.000 dólares ao longo da vida deles" (a tese implausível, mais parecida com uma manchete da Folha). O segundo é a marca política do póprio Ioschpe: "quanto mais sindicalizados os Professores, mais eles faltam e mais insatisfeitos estão com a carreira", fatos dos quais decorre uma menor qualidade do trabalho pedagógico desses docentes, razão pela qual nenhum deles pode ser identificado como "bom professor", embora os fatos digam o contrário...

Em qualquer circunstância...
Não sei onde é que o articulista quis chegar, mas me parece que o texto de Ioschpe integra uma já considerável quantidade de colunas publicadas na imprensa cuja linhagem é um verdadeiro tiroteio às escuras sobre temas de extraordinária importância social. No caso dessa "análise" sobre as características do bom professor, são nada menos que sete citações de referências cuja generalidade esvazia de significado maior as afirmações usadas, todas elas com o tom sentencioso de quem descobriu a verdade sobre o tema. No final das contas, não se consegue saber o quê exatamente o autor quis demonstrar. Mas dá pra sentir o cheiro: bom professor é o que não se preocupa com as demandas de sua categoria, não falta às aulas e consegue elevar o rendimento futuro de seus alunos. Ora...

As questões que envolvem a Educação - em especial, a docência - aparecem com extraordinária frequência nesse tipo de coluna. Como são matérias publicadas em órgãos de forte densidade pública, notadamente nesses segmentos que só formam opinião através da superficialidade das revistas semanais, o que dizem fica valendo como diretriz. Penso que está na hora de oferecer à sociedade, de forma massiva, a versão que as entidades de representação sindical dos professores têm do trabalho docente, suas características e peculiaridades... pelo menos como contraponto a essa monotonia conservadora...
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