sexta-feira, 15 de março de 2013

Uma das caixas pretas da educação nacional...

O Vaudeville, como diz a Wikipedia, foi um gênero de entretenimento de variedades. Na educação brasileira pode ser um tipo de formação que não vai muito além disso, mas carregado de intenções financeiras e ideológicas de peso...
Tenho em mãos uma das leituras mais chatas que alguém pode imaginar: o Relatório da Administração relativo ao ano de 2012 da Abril Educação, publicado no Estadão de hoje, 15 de março (Caderno de Economia, pgs. 7 e seguintes). Não há nada de humanamente interessante ali: o documento é um desses balanços corporativos que entopem páginas e páginas dos jornais com arrazoados e números - para alguns um universo ficcional cujo objetivo é exclusivamente convencer dirigentes e acionistas de que a empresa escapou das tempestades que ameaçam a economia o tempo todo. O que me chamou a atenção, no entanto, foi o volume de cifras da Abril Educação, uma holding desdobrada de uma empresa originalmente voltada para o universo midiático e jornalístico mas muito bem sucedida também nessa área que não é aquela da qual retirou e ainda retira sua visibilidade pública.

Não demorou muito para que o aparente paradoxo fosse esclarecido: a Abril Educação movimentou perto de 900 milhões de reais em 2012 nas suas várias ramificações de atividades nessa outra área - escolas, sistemas de ensino, cursos de idiomas, editoras de livros didáticos etc. Se eu estivesse escrevendo um panfleto, diria que se trata de um polvo, tantos são os "tentáculos" que movimenta em múltiplas direções (argh!). O estilo, contudo, não importa, pois a circunspecção de um relatório administrativo, uma pobre narrativa contábil, não deixa de ser emocionante: no caso da Abril, índices surpreendentes de crescimento (mais de 10 vezes superior ao PIB nacional), uma margem líquida de lucratividade de 11%, 39% a mais na participação das Editoras Ática e Scipione (propriedades da empresa) no Programa Nacional do Livro, aquisição de sistemas de ensino inteiros que atingem mais de 500 mil alunos e outras cifras igualmente pesadas.

São registros de um bem-sucedido empreendimento comercial, todos eles dignos de regozijo - talvez com uma única exceção: a sociedade brasileira não sabe para onde caminha esse complexo empresarial que lida com a formação de gerações inteiras de estudantes e que se constituem, a rigor, no capital humano primordial para o desenvolvimento nacional. Sim, porque as coisas com as quais a Abril lida não são apenas tangíveis em suas quantidades, cifras, planilhas e balanços; são também tangíveis do ponto de vista pedagógico e, portanto, configuram um projeto, um determinado espírito do tempo e do poder (zeitgeist und kfraft) que pode perfeitamente não representar nem o que somos nem o que queremos. Onde?

* Continue a leitura
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