terça-feira, 9 de abril de 2013

Estadão perde o tom e o rumo...

Estadão: no lugar do jornal, uma
silhueta turva e evelhecida do jornalismo que construiu sua tradição
Volta e meia me lembro do exemplo que dei aos meus alunos, já há alguns anos, sobre o capital simbólico do qual um jornal desfruta e com o qual faz valer sua marca no mercado. Na época, chamou minha atenção o relatório que a S/A O Estado de S. Paulo apresentou à assembleia de seus acionistas com introdução inteiramente voltada para uma narrativa construída em torno dos feitos históricos do jornal: à ideia de tradição centenária do veículo juntavam-se outras virtudes, entre elas o alegado compromisso coerente com sua linha editorial, a disposição de enfrentar o arbítrio do autoritarismo de Vargas e da ditadura militar pós-64, a inserção cultural e cívica que os Mesquita nunca se cansaram de propagandear... A intenção do exemplo que eu dava aos alunos  era a de permitir que observassem as consequências de uma prática que põe à frente do sucesso empresarial a coerência doutrinária, ainda que esse encaixe sofra inúmeros e frequentes arranhões.

Mesmo assim, observei então - e observo agora - que o discurso que registra esse valor cobra algum tributo de sua construção, geralmente um tributo positivo já que os compromissos de natureza institucional que o estruturam dizem mais respeito à legitimação do veículo do que ao seu perfil empresarial. No final das contas, o êxito de natureza econômica, publicitária etc aparece como decorrência de uma certa coerência que assegura a fidelidade de fatias do público consumidor do jornal, sua clientela e razão de ser da receita publicitária que consegue. 

Dito assim, de forma simplificada, corro o risco de tornar obscura essa relação intangível entre duas esferas simultâneas de existência de um jornal e que sinalizam para a sua prática hegemônica no âmbito da manipulação do noticiário e das articulações políticas que inevitavelmente decorrem dela. Mas para os objetivos deste post penso que a análise não é grosseira; ao contrário: indica uma especificidade bastante aguda quando se trata de analisar os produtos da indústria cultural. Pois é essa especificidade que parece estar sendo deixada de lado - ou sequer considerada - quando se avalia com cautela e sob diversos ângulos a notícia sobre o novo projeto do mesmo Estadão (leia aqui em cópia pdf).

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