quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alunos digitais, professores analógicos ou todos no mesmo barco?

Alguma coisa que lembra O Grito:
toda a Educação está
desorientada com as TICs
Estadão de hoje (3 de abril) publica mais uma das inúmeras bobagens que se acumulam na imprensa sobre os desafios que os professores enfrentam com o avanço das tecnologias digitais na Educação (leia aqui em cópia pdf). Digo bobagens talvez com rigor excessivo, mas é a repetição do mesmo, de explicações mal alinhavadas e um rasteiro desconhecimento do assunto que acaba desqualificando a discussão pública e cuidadosa que o tema merece. Melhor seria dizer que a retórica está esvaziada de sentido...

Se eu pudesse sugerir a contextualização dessa pauta que fica insistindo no despreparo dos professores para enfrentar o desafio das tecnologias digitais, começaria recomendando que os educadores que se dispõem a falar sobre o problema (e os jornalistas que se dispõem a escrever sobre ele) levassem em conta o caráter não linear da sua absorção por toda a sociedade brasileira. Não é verdade que as escolas que proclamam projetos com base nas Tecnologias da Comunicação e da Informação (TICs) estejam elas próprias preparadas para dar conta de toda a sua complexidade, nem seus gestores, muito menos sua clientela de alunos e de pais de alunos, já que a característica fundamental desse processo é a sua assimetria sócio-cultural, no tempo e no espaço. Os professores estão despreparados e desarmados - tanto quanto os demais segmentos envolvidos no setor.

Em segundo lugar, parte desse divórcio entre a potencialidade pedagógica das TICs e sua operacionalidade cotidiana - na sala de aula e fora dela - se deve, segundo penso, à forma limitada e pouco inteligente (para que se diga o mínimo) com que as próprias escolas (as públicas, na dependência de projetos de inspiração governamental e normativa; e as privadas, na dependência de sua inserção no mercado da educação) recorreram à sua aplicação meramente quantitativa e gerencial. Confunde-se o uso das TICs com armazenamento de dados e com registros - o que não apenas empobrece a relação dos estudantes com as tecnologias digitais como também constrange os professores ao seu uso burocrático e de pouca densidade educativa e intelectual. Insisto em afirmar que se há um segmento que vem contribuindo radicalmente para que educação brasileira não tire proveito emancipador das TICs, esse segmento é o do gerenciamento do sistema como um todo. Nas mãos de seus planejadores todas as expectativas transformadoras do mundo digital retrocedem, regridem...

E por último: o sentido verticalizado e hierárquico com que as TICs são aplicadas aos projetos educacionais - traduzindo-se numa somatória de tarefas de pouco significado para a percepção docente, anula conceitos e investimentos. Com exceção dos cursos de Educação a Distância, onde os professores aparentemente se apropriam das filosofias que os orientam, não conheço uma só escola onde a arquitetura que sustenta o uso das técnicas decorreu de um processo de participação efetiva de seu corpo docente na sua concepção.

Repito aqui o que já disse em outro post: o ministro Mercadante precisa ouvir os professores.
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* Para uma ideia da crescente complexidade que os recursos digitais representam para as formas convencionais de ensino-aprendizagem, recomendo a leitura das seguintes matérias: MOOCs geram pânico na educação superior americana (Estadão), MOOCs - Virtudes e limitações (blog MOOC-EAD), Porvir - Inovação e educação, 10 termos que são tendência no mundo da educação (Porvir).
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3 comentários:

Marcos Paulo da Silva disse...

Excelente reflexão!

Marcos Paulo da Silva disse...

Olá Faro, tudo bem? Publiquei o link com este seu post na minha página do Facebook e teve uma repercussão muito bacana. Muita gente comentando e compartilhando, incluindo orientandos e ex-orientandos seus... Sinal de que se trata de uma reflexão fatalmente necessária de ser feita! Grande abraço.

Alberto Claro disse...

Prof. Faro, por favor, veja o link no qual comento as notícias e faço referência ao seu texto.

http://www.albertoclaro.pro.br/2013/04/para-ler-e-refletir-o-desafio-docente.html

Um abraço
Alberto