sexta-feira, 17 de maio de 2013

Sem qualidades...

 Exasperamento infinito
Mais tarde começou a ficar mais difícil evitar a pergunta se era exatamente aquilo que ela havia desejado: destruir e matar a pancadas, por pura fúria aniquiladora, por incapacidade de deixar as coisas como elas eram, sobretudo quando elas pareciam boas ou mesmo apenas suportáveis. Ali parecia estar, pois, o limite da apatia de Ada. Tudo tinha de ficar em movimento, evoluir, escapar ao próprio naufrágio, porque conforme a natureza não havia outra direção possível, nem para os homens nem para as coisas. (...) Ocorresse em qualquer lugar um momento de equilíbrio e estabilidade, e logo uma necessidade de devastação subia pela medula da espinha, dava ordens às circunvoluções cerebrais, coloria os pensamentos, estabelecia notas e tomava decisões. Ada sabia da existência de insetos minúsculos, que se aferram aos gânglios de um hospedeiro e operam seu corpo como um guerreiro estelar o faz com seu veículo futurista. Este era o império do menor sobre o maior, que serve sempre a propósitos destruidores...
(Julie Zeh, A menina sem qualidades)


Estou às voltas com a 2a parte do romance de Julie Zeh de onde extrai o trecho acima. O livro pretende ser um retrato da desideologização e das posturas a-éticas dos jovens alemães depois da reunificação do país e a narrativa é toda centrada no comportamento de Ada, uma adolescente sem-qualidades, característica que a autora associa ao homem sem qualidades, que Robert Musil descreveu nos anos 30, um anti-heroi sem discernimento que vive ao sabor de impulsos que não se explicam de forma transcendente, da mesma maneira que Ada. Não sei... mas a julgar pelas características da sociedade europeia pós-muro de Berlim e pela hegemonia da cultura gerencial imposta pela lógica econômica, é mesmo possível que uma geração inteiramente adaptada a esses padrões, qualquer que seja o espaço no qual se encontre (em especial, na Universidade), já esteja em plena maturidade...

Digo isso a propósito da crítica feita por Carlos Boyero ao filme Jeune et Jolie, de François Ozon, no Festival de Cannes: a identificação do pragmatismo que domina a ação da personagem feminina e que frustra os sentimentos idílicos da cultura burguesa - que é, ao final, a matriz com a qual ainda julgamos todas as gerações. Boyero vai um pouco mais longe ao confrontar o retrato feito por Ozon com o filme de Sofia Coppola - The Bling Ring -, um semi-documentário com personagens reais inteiramente voltado para o vazio que cerca o cotidiano de adolescentes estadunidenses (leia aqui). É possível, por isso, que o fenômeno já tenha deixado de ser eminentemente europeu...
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Um comentário:

maria sofia aragão disse...

Pois é Faro, estou a ler esse livro. Fiquei irritada inicialmente, pensei em colocá-lo de lado.
Continuo a ler e a Ada pode ser uma jovem de classe média daqui também.
Para perder a irritação precisei refletir sobre a influência do meio, a desesperança de cada um em maior ou menor grau. A ausência de utopias e a desesperança. Me pergunto se nossos filhos por vezes também não se vêm nesse dilema.