domingo, 30 de junho de 2013

Daniel Alves e a nova Lei de Gerson...

Tomara que o apelo do jogador não estimule a prática do auto-engano nacional como compensação imaginária para os nossos problemas...
Imagino qual foi a intenção do jogador Daniel Alves ao afirmar em entrevista à Tv Estadão que "se você não é o melhor, faz de conta que você é o melhor" (assista aqui): é evidente que se trata de um apelo à energia e ao otimismo da seleção brasileira frente à espanhola. O próprio Alves deixa isso claro: é preciso que nosso time tenha confiança em si próprio para vencer um adversário reconhecidamente melhor... Concordo com ele...

Mas no Brasil, especialmente neste momento de turbulência política que estamos presenciando, com denúncias correndo soltas sobre os motivos da insatisfação popular em relação à precariedade em que vivemos em diversos setores, essa "palavra de ordem" do atleta do Barcelona pode ter o efeito de um resgate da antiga Lei de Gerson que recomendava nos anos 70 que era "preciso tirar vantagem em tudo"... Uma manifestação de um cinismo extraordinário e que se referia diretamente a uma marca de cigarro, mas que batia no imaginário da sociedade como legitimação de todas as falcatruas e oportunismos em que o país vivia (e ainda vive).

Pois eu temo que essa história de se fazer crer melhor, mesmo sabendo que isso não é verdade, se traduza em simulacro que oculte a dificuldade que o país enfrenta em quase tudo, mesmo com o redobrado ufanismo com que os setores que se aproveitam disso proclamam. Na Educação, na Saúde, na qualidade de vida, na preservação ambiental etc, me parece que somos levados a uma atitude que não tem sido outra senão a de imaginar que as coisas estão bem quando a rigor não estão nem um pouco bem, ou algum empresário desses que explora a boa fé dos jovens que frequentam cursos universitários particulares não se entrega a essa promoção do auto-engano a toda hora? E os planos de saúde então? E os projetos de urbanização e desenvolvimento sustentável? 

Daniel Alves não precisa vir a público explicar melhor o que quis dizer... mas é bom evitar que o apelo que ele fez vá além dos limites do jogo contra a Espanha e não se estenda como prática cultural que prefere esconder sob o tapete os gigantescos atrasos da nossa realidade.
______________________________

Nenhum comentário: