sexta-feira, 21 de junho de 2013

Festa junina no país inteiro...

A burocracia política pensa que são fantasmas perambulando no seu quintal. Engano delas: é o pessoal entulhado de indignação fazendo a sua festa junina...

Acho que como tudo mundo, estou tentando entender a dimensão desse movimento que explodiu no Brasil nos últimos dias. As comparações são inevitáveis, especialmente para aqueles que viveram a efervescência de 68: guardadas as diferenças de conjuntura, percebo semelhanças significativas, especialmente uma recusa generalizada em aceitar essa sociedade administrada e de controle que a modernização brasileira está gerando. Posso estar enganado, mas essa profusão de reivindicações - das mais simples às mais estruturais - refletem a descrença nas perspectivas: esse sistema não faz a felicidade de ninguém. Ele é disciplinador e desprovido de qualquer apelo emotivo e arrebatador que possa substituir o charme das ideologias dos anos 60.

Penso que nenhum dos PTs, muito menos nenhum dos PSDBs ou PSOis ou PSTUs, entendem muito bem a complexidade que isso representa. Também eu não entendo, claro, mas essas manifestações - algumas das quais tenho acompanhado de perto - reforçam a tese com a qual trabalho nas disciplinas que falam sobre a cultura contemporânea e que ministro na Metodista e na PUC-SP: a modernidade tardia opera sua hegemonia simbólica a partir da fragmentação, da especialização, do esvaziamento intelectual e criador do indivíduo, reduzindo-o àquela unidimensionalidade de que nos falava Marcuse. E é nesse ponto que eu encontro um traço de identificação e de unidade de todas as demandas presentes nas manifestações que estamos vendo. 

Pois é para elas que os governos de Fernando Henrique, de Lula e de Dilma não manifestaram qualquer sensibilidade durante o tempo em que ocuparam e ainda ocupam o governo. Ao invés de romper com o passado que nos determina uma sociedade idiotizada pelos abismos sociais e culturais, preferiram a obediência absoluta à lógica do capital, o internacional e o caipira: a intensificação de um crescimento econômico desumanizado, privatizado, arrivista e dessocializado. Alguém imagina que a mudança no perfil da distribuição da renda pode mitigar os efeitos desse modelo; alguém imagina que um jovem agraciado com uma bolsa do Prouni fica satisfeito com o estelionato em que se transformou o ensino universitário privado; alguém supõe que esses monstros arquitetônicos erguidos pela especulação imobiliária (com o apoio dos governos municipais) nos asseguram qualidade de vida; e é possível perceber alguma coisa de honesto nessas falcatruas dos planos de saúde? Está ou não doente uma sociedade onde um suposto lider empresarial tem a desfaçatez de ocupar dois cargos públicos simultaneamente e vir a público advogar em causa própria?

Vejo que essa galera que saiu nas ruas está com o saco cheio de tudo isso. O presidente do PT paulista, cabisbaixo e um pouco menos arrogante, saiu-se com a desculpa segundo a qual o partido não deu a atenção que esses "novos movimentos sociais" mereciam - e que agora o surprende com vaias e repelência. Conversa: não deu atenção por que nunca soube do que se tratava; se tivesse dado atenção, talvez não entendesse. Os movimentos políticos tradicionais (à direita e à esquerda) construíram - da mesma maneira que os sindicatos - uma  burocracia estamental que se apropriou das instâncias pulverizadas do poder e é muito difícil fazê-las descer de sua empáfia. Agora, estão pagando o preço por isso...
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