sábado, 26 de outubro de 2013

Breaking Bad

Paisagem do México lembra muito o visual das cidades brasileiras: abandono social em meio aos lucros astronômicos dos interesses privados sustentados pelo Estado

O jornal El País publica hoje uma boa matéria sobre o verdadeiro engodo em que se transformou o slogan "momento mexicano" com o qual as elites conservadoras daquele país, impulsionadas pela eleição de Peña Nieto, pretendiam criar a imagem de uma economia em estado de graça em consequência das políticas neoliberais. A tentativa não resistiu à realidade: o aprofundamento do modelo econômico, cuja essência é a transferência da riqueza nacional para os Estados Unidos, acabou levando o México à beira do abismo social e o "momento mexicano" talvez sequer tenha existido. E daí? O que isso tem a ver conosco? Olhando de perto, tem tudo...

Também no Brasil a tecnocracia que administra o modelo econômico insiste em propagar a excelência das opções que vêm sendo feitas pelo governo; não chegam a falar num "momento brasileiro", mas é sugestivo que essa descarada abdicação da soberania do Estado em favor dos empresários possa - como de fato já ocorre - levar o país para o mesmo beco das economias em breaking bad (para usar a expressão rica em múltiplos significados dessa extraordinária série de tv), isto é mal-paradas, em mergulho de agravamento do caos, em estado de ruptura com a racionalidade normativa até mesmo da  modernidade burguesa.

Os indícios de que isso esteja ocorrendo mesmo são vários, mas o principal deles é esse mantra que se repete na mídia  - via sentenças de economistas comprometidos com os bancos e com as empresas - sobre as difíceis perspectivas de retomada do crescimento significativo do PIB brasileiro. Como o governo não tem argumentos para desfazer essa recitação quase teológica , acaba cedendo à pressão pelo aumento das vantagens financeiras e fiscais de todas as concessões ao capital (privatização da rodovias, portos, aeroportos, desonerações, operadoras de todo o tipo etc). O resultado é o colapso político do Estado, sua transformação em refém dos interesses particulares e a perda de sua capacidade de instância organizadora do processo econômico. Ou alguém ainda não percebeu o olhar subalterno e constrangido com que o ministro Mantega explicas as medidas que toma, obediente e submisso, pedindo desculpas...

O discurso salvacionista dos interesses privados, no entanto, não são formulações caboclas, mas inspirado em postulados globais. Para o FMI, por exemplo, são as concessões aos empresários a esperança de que o Brasil volte a crescer (leia aqui), ainda que não se explique exatamente como diante do déficit de infra-estrutura, de investimentos(*) e de renda que aprisiona a capacidade produtiva e o dinamismo do mercado interno. Enquanto o cargalo não se desfaz, é o setor dos serviços o alvo principal. 

É o caso, por exemplo, da notícia segundo a qual o BNDES vai abrir linha de crédito para financiar operadoras de planos de saúde na construção de hospitais particulares. O projeto do governo, que já está em fase de elaboração final em Brasília, foi anunciado pelo ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, na Convenção Nacional das Unimeds realizada em BH. Pimentel é acusado pelo MP de ter atuado em favor dos interesses dessa mesma operadora quando era prefeito da capital mineira... Pois se o próprio governo está assegurando o monopólio dos planos de saúde dos servidores nas mãos de uma única fundação particular (aqui)...

Vamos voltar ao tema em outras potagens.

(*) Segundo o Clipping da Ascom-GM, o Brasil teve a maior fuga de capital de toda a sua história no  trimestre  abril-maio-junho deste ano: só os bancos estrangeiros instalados aqui levaram para fora U$ 41 bilhões. Não tenho informações a respeito do 1o. colocado na lista, mas somos o 2o. país que melhor tem feito o papel de bobo no cenário internacional...
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