segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Livro de Paula Puliti abre a caixa preta do jornalismo econômico

O capitalismo é instável e feito para as empresas; o jornalismo econômico não precisa ir pelo mesmo caminho
A notícia saiu no Estadão de 12 de setembro deste ano: economistas ligados a consultorias e ao mercado financeiro reconheceram o erro crasso de estimativas que cometeram ao prever que a queda da inflação em junho não resultaria em melhora do comércio varejista, fato que levaria o Brasil a se manter no estado de hibernação econômica prolongada em que se encontra. O equívoco de avaliação - que não se baseava em qualquer evidência concreta, muito menos em elocubrações teóricas -  acarretou prejuízos até mesmo entre os que olham com reservas as especulações dos analistas pois que uma sinalização dessa ordem invariavelmente traz recuos em investimentos, em oferta de empregos, em aquisições etc. Uma previsão errada dos economistas, como essa noticiada pelo jornal, tem o efeito de uma cascata sobre todos os setores da atividade econômica e chama a atenção pela irresponsabilidade impune de seus autores.

E os jornalistas, onde estavam quando surgiram as previsões erradas dos economistas? Estavam onde sempre estiveram: na cômoda posição de correias de transmissão de informações que dizem respeito a uma área que não conhecem o suficiente ou diante de fontes que não são questionadas porque falam de tecnicalidades sobre as quais os repórteres não têm a menor ideia do que sejam. Os jornalistas - ainda que involuntariamente - foram cúmplices na divulgação de uma informação que não foi apurada em toda a sua profundidade, dimensão e contexto. Fizeram o oposto daquilo que se espera deles: ignoraram princípios elementares de sua profissão e se afastaram do interesse público.

Nesse intrincado de problemas que um fato perdido no tempo demonstra e que põe a nu a fragilidade da previsão econômica (tão grave quanto a da previsão do tempo ou quanto qualquer outra previsão) associada à fragilidade da cobertura jornalística (uma espécie de recorrência do episódio da Escola Base), reside o núcleo do estudo feito por Paula Puliti em sua tese de doutorado (orientada na ECA/USP por Bernardo Kucinski) e que acaba de ser lançado com o título O juro da notícia (Florianópolis: Insular, 223 pgs).

Tenho muito interesse pelo assunto, mas não foi só isso o que me fez ler a obra quase de um fôlego só... (continua)
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