sábado, 2 de novembro de 2013

Simulacros...

Brookfield confirma pagamento de R$ 4,1 milhões em propina a servidores

Segundo representantes da incorporadora, dinheiro corresponde ao valor da liberação de 20 empreendimentos lançados em São Paulo entre 2009 e 2012 (Estadão, 01/11/13)

O cidadão interessado em saber como é simples a construção dos significados que turvam a nossa compreensão da realidade - os tais simulacros de que nos fala Jean Baudrillard -   tem nesse escândalo do pagamento de propinas pelas construtoras em troca da liberação de empreendimentos imobiliários um bom exemplo. Uso aqui, apenas para ilustrar a gravidade do fato, o caso da empresa Brookfield Incorporações, que já se apressou em confirmar que entre 2009 e 2012 subornou servidores da Prefeitura Municipal de São Paulo com soma superior a 4 milhões de reais, conforme notícia publicada no Estadão

A mancha da corrupção criada por essas empresas do setor da construção civil na cidade é bem mais ampla e antiga do que essa - na verdade, alguma coisa que pode ser comparada a um poder paralelo ao do Estado (uma espécie de PCC engravatado) que desarticulou todas as tentativas de regular a especulação imobiliária em São Paulo, mas a Brookfield, inteligentemente, diga-se, sai na frente com a admissão de culpa e se oferece à execração como caminho para igualmente sair logo do noticiário. Pode ser que dê certo; pode ser que não. Seja como for, é o exemplo de que me sirvo para ilustrar meu comentário.

Sugiro que o visitante deste blog visite o site da empresa e navegue pelo conjunto de recursos de acesso disponíveis. Há de tudo ali, inclusive uma bem construída página onde as virtudes da corporação ("referência no Brasil e no mundo") são destacadas: uma história de valores ligados à ética e à sustentabilidade no empenho de construir um mundo melhor. Pura balela! O vídeo é profissional, como é profissional também esse jogo de simulacros que se sobrepõe à realidade: não mentem, mas escondem a verdade que se oculta sobre uma narrativa que nos turva o entendimento da realidade. 

O exemplo me encanta porque é mesmo um case desses que o pesquisador se farta de material bruto para demonstrar a hipótese com a qual trabalha - esse exercício que os acadêmicos (como é o meu caso) não se cansam de fazer na sua atividade. Mas é um exemplo que deixa todo mundo vexado pois comprova uma tese que ganha corpo na sociedade brasileira: a convicção de que os interesses privados constituem-se hoje no maior perigo que nossa sociedade enfrenta. Como nos obriga a dizer o lugar comum: a Brookfield é a ponta do iceberg (argh!)

* Campeão na prática do estelionato praticado contra o Estado e a sociedade é o empresário Eike Batista. Nem mesmo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, conseguiu escapar (leia aqui). 
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