quinta-feira, 29 de maio de 2014

As luzes da Europa...



Europa, raptada por Zeus (na forma de um touro), prisioneira lunar em Creta: na mitologia grega, tal como hoje, em busca da identidade    
No próximo dia 4 de agosto, os ingleses vão comemorar o centésimo aniversário do início da I Guerra Mundial... apagando as luzes. O gesto, que deve cercar-se de toda a simbologia da tragédia que inaugurou o "breve século XX", tem uma explicação: foi o ministro das relações exteriores da Grã-Bretanha em 1914, Edward Grey, quem sentenciou o alcance do conflito: "uma a uma - disse ele ao saber do início das hostilidades - começam a apagar-se as luzes em toda a Europa; não as voltaremos a ver acesas no tempo que nos resta de vida". 

A lembrança do episódio é oportuna e vem a propósito dos resultados das eleições europeias realizadas no último dia 25 de maio: em meio a uma abstenção que chegou a quase 60% do eleitorado, o crescimento da extrema-direita nacionalista que forma um poderoso grupo anti-comunitário, isto é, favorável à dissolução da CEE; e o crescimento da extrema-esquerda, em especial de representantes da Grécia, da Espanha e de Portugal, conglomerado que também não aposta no projeto de uma Europa unida (leia aqui a análise publicada em Outras Palavras). Não é o caso de um apagar das luzes semelhante como o que foi previsto por Grey, mas toda a articulação liberal e social-democrata que sustentou o progressismo europeu no pós-guerra pode dar lugar à latente xenofobia nazi-fascista que inspira os movimentos anti-imigrantes e separatistas que, ao que tudo indica, vão dominar o novo parlamento.


Para Boaventura de Sousa Santos, o resultado das eleições é mais grave que um simples arranjo de cadeiras: "... há certamente o perigo da nazificação da ideia de Europa. E não pode deixar de ser salientado que o nazismo é uma herança cruel... uma pulsão [alemã] solta no resto da Europa" (leia aqui). O caldo de cultura que alimenta esse processo é o mesmo que já conflagrou o velho continente: a crise econômica e a teimosia do grande capital financeiro em não aceitar a regulamentação do Estado do Bem-Estar Social" (leia a indignação da própria diretora do FMI, Christine Lagarde com o imobilismo do setor financeiro diante do agravamento da crise europeia e mundial).


* E também Elite de US$ 30 trilhões discute renovação do capitalismo em Londres.

* Mas o que isso tudo tem a ver com o Brasil? A inexistência de alternativas consistentes para o pensamento grosseiro da direita pode nos colocar na mesma crise de representação - ou nas mãos da hegemonia da representação conservadora. Veja a excelente entrevista que o sociólogo Ruda Ricci deu ao IHU, da Unisinos.
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