domingo, 4 de maio de 2014

Falta História em Getúlio

Crise que culmina com o suicídio de Vargas é mais complexa do que o drama palaciano retratado por João Jardim
Nem o Palácio do Catete é o trono de ferro de Westeros, nem Getúlio integra alguma família de Game of Thrones. Os ritmos da vida real são mais lentos do que a narrativa da série premiada da HBO, mas nem por isso são menos densos e dramáticos, especialmente porque se trata - no caso do suicídio de Vargas - de um processo cuja origem está situada numa crise social e política que colocou o Brasil no centro da luta de classes. Tenho a impressão de que é isso o que falta para que o filme de João Jardim tenha pleno êxito no retrato que faz dos acontecimentos de 1954.

O filme me dá a sensação de que Vargas viveu naqueles 19 dias de agosto um isolamento palaciano. Do lado de fora, tudo parece arquitetado pelos discursos ferinos e mal-educados de Carlos Lacerda - que encontram eco entre os militares da Aeronáutica atingidos em seus brios pela morte do Major Vaz. Do lado de dentro, o excesso de zelo de seu guarda-costas, o anjo negro Gregório Fortunato, que chama para si a vingança de seu chefe na morte de Lacerda. No final das contas, digno como era, Getúlio teima em resistir e é apreciado porque cumpre com a promessa de só sair do Catete morto, mas falta nesse contexto da personalidade trágica a sua representação social: nem Lacerda era o conspirador reacionário por um ato de voluntarismo pessoal, nem Vargas é seu principal desafeto porque é teimoso. Os dois estão em lados opostos por sua relação com projetos que pretendiam levar o país para direções opostas.

Meu amigo Victor Gentilli, na oportunidade de um breve comentário sobre o filme, me diz que falta ali muita coisa, mas em especial ele cita a ausência do jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Verdade, e falta mais: então aquela crise toda não repercute na sociedade? Onde estavam os trabalhadores que hipotecavam o respaldo político a Getúlio? Afinal, quem era o tal Eduardo Gomes que exerce na República do Galeão, o poder político do Estado Brasileiro? Lacerda fala em nome de quem? E a contra-dança dos ministros militares com Café Filho tem quais interesses?

É claro que João Jardim tem toda a liberdade de reinterpretar os fatos históricos da maneira que quiser, mas uma certa fidelidade histórica cobra em cena a presença dos elementos que tornam os fatos um processo complexo, principalmente quando eles estão recobertos por uma dimensão mítica que só encontra plena explicação na dinâmica social.  Não há tragédia sem essa complexidade. Senti em Getúlio mais o retrato de um dirigente político sem competência para compreender as forças que o cercavam; frágil e cansado, alvo da comiseração até mesmo do semblante pensativo de Lacerda quando corre a notícia do suicídio. Não me parece que isso nem seja verdadeiro nem verossímil.

Num único momento, até onde percebi, Jardim toca no ponto sensível do significado daquilo tudo: nas referências finais do filme, quando aparece a citação de Tancredo Neves para quem o suicídio de Vargas adiou o golpe de 1964. Tancredo, que Getúlio presenteou com sua caneta pessoal na última reunião do ministério que presidiu, momentos antes de se matar (outra lembrança de Victor Gentilli), percebia as forças que atuavam naquela conjuntura e quais seus verdadeiros objetivos. Só isso já bastaria para que o filme resgatasse mais plenamente o que Getúlio Vargas representou na história do  Brasil contemporâneo.

* Leia também Getúlio cai nas armadilhas do filme histórico (Outras Palavras)
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