domingo, 11 de maio de 2014

Em defesa da Literatura: inteligência versus indigência intelectual

A proposta de "facilitar" a leitura de Machado de Assis tem de tudo um pouco, inclusive graves indícios de indigência intelectual de quem a fez e de quem a aprovou no Ministério da Cultura
Fiquei sabendo do fato através de meus alunos da PUC: a "escritora" Patrícia Engel Secco (?), com o apoio de recursos públicos, conseguiu emplacar seu projeto Os clássicos e a Literatura, cujo objetivo é simplificar a obra de Machado de Assis e de outros autores  nacionais através da rasura vulgar dos seus textos originais. A referência veio à tona durante uma aula em que mencionei dois episódios que mostram o quanto ainda resta a ser superado para que o obscurantismo deixe livre a inteligência. O primeiro foi a intervenção moralista e censória que Veja fez na obra de García Márquez quando publicou a resenha do livro Memórias de minhas putas tristes, suprimindo a palavra putas por reticências, como se à revista fosse dada a autoridade para manipular a semântica do título a partir do seu entendimento preconceituoso do termo. Quem esse editor e o jornalista autor da resenha pensam que são? A segunda, mais ou menos na mesma época, foi a alegação de que Monteiro Lobato, por um suposto preconceito racial manifestado na personagem Tia Anastácia, deveria ser "explicado" aos estudantes sempre que entrassem em contato com a obra.

Fui atrás de maiores informações sobre o projeto de Patrícia Secco e a coisa toda me pareceu se explicar pela mesma matriz que inspirou Veja e também a censura a Lobato: a absoluta ignorância que todas essas iniciativas manifestam em relação à obra de arte, à sua incolumidade de forma e conteúdo, à sua sacralidade estética e conceitual. Guardadas as proporções, todas essas demonstrações ridiculamente obscurantistas e rasteiras soam como escárnio e têm algo de anedótico: fosse inglesa e a "escritora" Patrícia Secco, junto com Veja, certamente proporia uma reescrita de James Joyce; ou o banimento de Shakespeare das escolas britânicas, pelo menos de O mercador de Veneza por seu suposto anti-semitismo na construção do judeu Shylock. Já na Alemanha, A montanha mágica, de Thomas Mann, teria que ser inteiramente revista. Nas Artes Plásticas, Picasso, por exemplo, teria que ser repintado; e na Música, Mendelssohn seria recomposto para que pudesse ser ouvido com mais clareza... Em resumo: essa "escritora", além de sua extraordinária estultícia, nos deixa muito mal na fita da cultura contemporânea...

Mas tem mais uma coisa que me incomoda, e muito: o projeto da "escritora" foi aprovado pelo Ministério da Cultura e, portanto, conta com o respaldo oficial que tem o sentido de uma chancela, pelas verbas que consome e pelo timbre que associa o governo à violação de um patrimônio imaterial da Cultura Brasileira. Não chego a insinuar que a "escritora" Patrícia Secco tem interesses venais na aprovação dessa bobagem fascista que ela inventou (embora, graças a isso, sem que se saiba quem aprovou a sandice, a "escritora" desfrute de um gordo subsídio: mais de 1 milhão de reais, como noticiou o blog da Babel no Estadão), mas a possibilidade de que a autoridade pública tenha cometido crime de responsabilidade no episódio, isso talvez o Ministério Público possa investigar...

Enquanto isso - e até que a razão iluminista nos proteja - sugiro o acesso à entrevista com Urariano Mota publicada no Vermelho, a assinatura da petição dirigida ao Ministério da Cultura para que a violência contra a obra de Machado de Assis e de outros escritores seja rejeitada e desautorizada... e um passeio pela denúncia sobre o estrago que a intervenção no texto de Machado de Assis já provocou...

* Sobre o mesmo assunto, três boas leituras: Machado no machado (artigo de Norma Couri no Observatório da Imprensa), Polêmica da simplificação dos clássicos chega às escolas (matéria do site Divirta-se), Machado copidescado (José Miguel Wisnik no Observatório da Imprensa)
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