quarta-feira, 25 de junho de 2014

Hinos nacionais, o lado obscuro e fascista da Copa

David Luiz, entre outros, traduz toda a animosidade que os hinos nacionais inspiram com a vulgaridade e mentiras de seus versos
Cheguei a postar no twitter dia desses uma observação que faço sempre que ouço qualquer hino nacional nos minutos que antecedem os jogos da Copa: acho que eles são o lado negativo do evento - não apenas pelas bobagens e mentiras ditas sob o mau gosto de suas letras, mas também pelo espírito guerreiro que procuram inspirar nos times e nas torcidas nacionais. Quando atento para a rudeza desse apelo - que em tudo contraria o fair play apregoado pela Fifa -, acabo admirado pela coragem da Espanha e da Bósnia em retirar de seus hinos qualquer letra, deixando-os apenas como música. É mais honesto.

Em grande parte, os hinos são resultado do perfil moderno dos Estados, tal como configurados, em sua maioria, a partir do século 18, junto à emergência do liberalismo e da Revolução Industrial. Por conta disso, são inspirados no nacionalismo romântico de afirmação que as burguesias de todos os continentes - onde a formação social chegou a tanto - procuram se consolidar no poder através da legitimação simbólica de seu papel ideologicamente hegemônico. Os hinos, portanto, simulam uma unidade cultural, política, étnica, geográfica e até religiosa que, na verdade, não existiu em lugar nenhum. Como se trata de um simulacro, nada do que dizem suas letras é verdade - além do registro que todos eles permitem: são hiperbólicos e cafonas e de um arcaísmo linguístico de doer no ouvido.

Há, no entanto, um detalhe curioso nesse contexto das toadas coletivas que antecedem o início dos jogos: o espírito nacionalista dos hinos está fora do lugar e contrasta com essa que é uma das características marcantes do futebol e de seu maior torneio, a globalização das marcas e dos atletas como fundamento e retorno milionário do desempenho das equipes. Um olhar mais atento para o painel posto nas costas de jogadores e dirigentes sempre que são entrevistados, a profusão de símbolos comerciais que estampam, dá bem a medida do paradoxo que a liturgia dos hinos representam. Alguém disse, num ensaio perdido no final dos anos 90, que a democracia pós-moderna seria exercitada nos pátios dos shopping centers por consumidores que, como título eleitoral, exibiriam seus cartões de crédito em sua suas diversas bandeiras. Eu acrescento a essa metáfora inteligente a hipótese de que um hino coerente com o século bem poderia ser um jingle da Nike ou o toque de inicialização do windows.

* Leia também Os hinos também disputam a copa (El País).
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