sábado, 23 de agosto de 2014

Autonomia do Banco Central viola a democracia e transforma eleições em simulacro...

O que era apenas um filme de Marcos Paulo pode se transformar - caso a autonomia do Bacen seja concedida - numa prática cotidiana da vida brasileira. Golpe de mestres...
Marina Silva nem bem pôs os pés no chão como candidata do PSB à Presidência e já se apressa em "acalmar" os mercados. Não era necessário o esforço: bastaria lembrar o perfil dos assessores que atuam ao seu lado - e que também atuavam com Eduardo Campos - para ficar clara sua postura reverente e submissa ao capital financeiro. Meu voto, portanto, não será de Marina - como já não seria de Campos. Estou convencido de que o núcleo duro das dificuldades econômicas que o Brasil enfrenta está no empresariado e, dentro dele, no setor ligado ao capital financeiro; e não acredito em programas de governo que não os afastem da racionalidade política do governo federal, desafio que nem mesmo a pujança popular de Lula conseguiu.

Nestas eleições de 2014, no entanto, a desenvoltura e desfaçatez com que essa turma se espalha na legitimação de seus interesses - como se fossem interesses públicos - parece ter se tornado mais grave. É o caso, por exemplo, das declarações de Maria Alice Setubal, herdeira do Banco Itaú (aquele do lucro astronômico de R$ 5 bilhões só no segundo trimestre deste ano) e coordenadora do programa de governo de Marina Silva feitas à Folha: segundo Neca (como Maria Alice é conhecida), a promessa de concessão de autonomia do Banco Central através de Lei específica está mantida e será cumprida, caso Marina Silva seja eleita.

Ora... a autonomia do Banco Central sacramenta o descolamento da política financeira das mãos do governo transferindo-a para a órbita de uma gestão tecnocrática que nada tem a ver com a prática republicana e democrática que sustenta as eleições. Para que se tenha uma ideia do alcance disso, basta acompanhar as dificuldades que o governo de Obama, nos Estados Unidos (onde o Federal Reserve Board - como é chamado o Banco Central de lá - é autônomo), enfrenta até hoje para corrigir as causas da crise de 2008 - que foi essencialmente provocada pelos bancos. Devendo sua prestação de contas ao Congresso americano (onde o lobby do grande capital corre solto) e não ao Executivo (onde as pressões sociais são mais sentidas), o FED atua como um poder paralelo que sucessivamente põe em xeque as diretrizes do governo de Washington. 

Penso que a iniciativa que ganha corpo na plataforma de Marina tem atrás de si muito mais do que a mera intenção de fazer votos em campanha; ela representa compromisso de autonomia concedida a um segmento que busca a legalização de seus interesses privados à margem do poder que vem das urnas. Não dá para votar em candidatos que transformam a eleição presidencial nessa mistura de louvação e simulacro...

* Assista a entrevista de Luciana Genro (Estadão, eleições 2014): "A Marina está à direita da Dilma..."
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