sábado, 16 de agosto de 2014

Universidade privada reflete padrão inconsequente e colonizado do capitalismo brasileiro

Descortino (e seriedade) é o que falta às empresas de educação (ilustração, tastequiet)
Acabo de ler no UOL a notícia segundo a qual o Brasil tem apenas seis universidades ranqueadas entre as 500 melhores do mundo. É uma informação que pode confundir porque seis entre 500, no conjunto de mais de 190 países, não chega a ser uma proporção desprezível. Olhar de perto esse número, no entanto, pode nos deixar constrangidos, tanto pela dimensão que nosso país ocupa hoje no cenário econômico - com os desafios da emergência global - quanto pelo crescimento que o ensino universitário privado registrou aqui nos últimos anos. A rigor, portanto, trata-se de um paradoxo, já que as seis universidades brasileiras que entram no grid da Academic Ranking or World Universities são todas públicas, fato que nos deixa numa situação mais delicada.

Acredito que a expansão do ensino superior privado no Brasil é um inchaço parasitário de sua associação à lógica mercantil e aventureira do empresariado que a lidera. O resultado, que reflete a ideologia dos que comandam esse processo, é o que se vê: um ensino de péssima qualidade e uma produção de conhecimento nula, com as raras exceções de instituições confessionais e comunitárias que mantém fidelidade aos projetos que lhe deram origem. Mesmo assim, também essas correm o risco de serem envolvidas pela concentração empresarial nacional e internacional que age solta sob a proteção do MEC. No final das contas, o setor como um todo acaba por refletir a mesma fragilidade do capitalismo brasileiro - desprovido de projeto, subalterno e colonizado.

Nesse sentido, vale a pena ler a entrevista que o economista Artur Cardoso, da Unicamp, deu ao site Humanitas. Para ele, a escolha estratégica de enriquecimento da burguesia brasileira - nos setores que direcionam o fundamento da modernização econômica - foi a do baixo investimento e a da especulação financeira, opção que torna imediatista seu horizonte. É o pior cenário possível para a expansão de qualidade da atividade universitária. Por que a imprensa não pauta essa lógica em época de campanha eleitoral? Seria muito bom que a esfera pública pudesse incorporar o assunto na ordem das escolhas que fará em outubro...

* Leia também: Muita aula pela frente (matéria do Valor Econômico sobre os desafios da expansão do ensino superior privado). E uma raridade: um texto de Nicolau Sevcenko escrito em 2000 sobre a Universidade em tempos de neoliberalismo - O professor como corretor
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