quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Brizola tinha razão...

Para os que acompanharam sua trajetória política e a coerência de suas ideias, Brizola foi o melhor presidente que o Brasil infelizmente não teve. Um talento torpedeado pelas elites conservadoras que não suportavam sua ousadia em enfrentá-las

A eleição de 1989 - a primeira para a escolha direta do presidente da República depois de 1960 - terminou com o pior resultado possível, mas como campanha foi memorável. O embate dos candidatos, ao contrário do que acontece agora com esse jogo de esconde-esconde das propostas em discussão, foi uma briga aberta (e desabrida, como diria tia Cleps) que fez emergir na esfera pública o debate qualificado em torno dos pesados problemas que o país enfrentava ao sair da ditadura militar. O único candidato que não tinha qualquer preparo para discutir esses temas foi ironicamente o escolhido pelo voto popular...

Mas durante a campanha, o momento que oferecia mais energia e envergadura política à disputa era a disposição meio romântica de Leonel Brizola (1922-2004) em apontar aquela que seria, para ele (e para mim também ainda hoje) a causa fundamental do atraso econômico do país: as "perdas internacionais", como ele definia a pior consequência da condição subalterna que o Brasil vivia em sua inserção subordinada ao capital estrangeiro e às relações desiguais de troca no mercado global. O resultado dessas perdas - uma visão fundamentada na Teoria da Dependência de Celso Furtado e abraçada pela Social-Democracia, cujo melhor representante em nosso país não era o PSB nem o PT, nem depois o PSDB, mas o trabalhismo do PDT - quando o PDT  (ex-PTB getulista) tinha um programa digno de sua herança - era a manutenção da nossa fraca capitalização que a mediocridade financeira, política e de projeto da burguesia brasileira aprofundava (um quadro atualizado dessas perdas internacionais pode ser observado na notícia, aplaudida pelo agronegócio, de que aumentou a dependência brasileira da exportação de matérias-primas).

Brizola não foi eleito, como se sabe. Contra ele não conspiraram só o arrepio e o ódio das elites, mas segmentos amplos da própria esquerda, a mídia, a desarticulação partidária e o sentido conciliador da transição democrática que acabou... levando Collor ao poder. As denúncias de Brizola, no entanto, têm ainda hoje uma atualidade impressionante: basta olhar para a orgia de recursos que as empresas estrangeiras enviam para suas nações de origem periodicamente num processo sistemático de transferência da riqueza gerada pela sociedade brasileira para os centros do capital financeiro e industrial. Numa postagem feita por mim recentemente aqui mesmo, demonstrei, através de um gráfico do IBGE, que entre 2007 e 2013, para um total de investimentos da ordem de US$ 3,9 bilhões de dólares, as montadoras remeteram para suas matrizes, no mesmo período, US$ 26,4 bilhões.  A diferença entre os dois números é a perda internacional a que Brizola de referia na campanha de 89 e à qual continuou se referindo em todas as oportunidades que teve.

O que Brizola não podia imaginar é que esse processo de sangria dos recursos gerados aqui ganharia uma dimensão que acaba por reproduzir, internamente, a mesma dinâmica das perdas internacionais, como se houvesse um duplo processo de colonização sobre o país: o externo (que se mantém estruturalmente intocado desde a Revolução Industrial, talvez até mesmo antes) e o interno (que transforma instituições criadas para dar sustentação ao desenvolvimento econômico em instrumento de alavancagem dos interesses privados dos grupos econômicos nacionais.

A coisa toda é aparentemente complicada, mas olhando de perto é extraordinariamente simples e é atestada pela notícia publicada hoje no jornal O Estado de Minas: para manter o fluxo de recursos baratos e subsidiados destinados às empresas, o Tesouro Nacional (que é mantido pela sociedade) transferiu ao BNDEs (o órgão que tem custeado o capital privado) R$ 79,7 bilhões em 4 anos. A tradução disso é simples: a riqueza socialmente gerada na atividade econômica que se expressa nas reservas do Tesouro é fortemente repassada para as empresas que, com isso, têm ampliadas suas margens de lucro sem risco para os investimentos que fazem, pois que o investimento é sustentado pelo Estado. Um negócio da China como nunca se viu...

Estivesse vivo e imagino que Brizola diria a respeito disso que essas perdas internas somam-se à evasão de divisas, aos ganhos astronômicos dos bancos, à desoneração que maximiza os lucros dos setores beneficiados com ela... E certamente colocaria nessa equação a responsabilidade pelo desempenho ridículo do nosso PIB, pelo esgotamento da capacidade de endividamento da população, pela baixa oferta de emprego. No Brasil, esse capitalismo alimentado pelo Estado, sem a contrapartida econômica e social que deveria ter, é um capitalismo anêmico e oportunista, em que pesem os muxoxos do empresariado contra o governo.

Penso que as eleições deste próximo mês de outubro vão continuar indefinidas mesmo depois de eleito um dos candidatos. Duvido que algum deles tenha a clareza que Brizola tinha sobre as razões profundas dos nossos problemas. É uma eleição de marqueteiros e de jogo de cena midiatizado e duvido muito que até a definição do 2o. turno, se houver, alguma coisa jogue luz nesse simulacro que estamos presenciado.
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