terça-feira, 23 de setembro de 2014

Desserviço à Educação

Proposta de mudança do currículo do Ensino Médio feita por Dilma reforça a imagem de que a campanha eleitoral é um deserto de ideias.
Estamos escolhendo um gerente de interesses privados ou um presidente da República?

Essa proposta improvisada da candidata Dilma Roussef feita ontem no Bom Dia Brasil (leia aqui) me parece exemplar: com o peso que tem nos ombros na condição de Presidente da República e na eventualidade de que seja reconduzida ao cargo, ao sugerir que o currículo do Ensino Médio seja reduzido em duas disciplinas (Filosofia e Sociologia), a candidata dá uma bela demonstração da falta de qualidade dos debates que rolam na campanha eleitoral. 

Como comprovadamente não entende do assunto - se entendesse teria fundamentado o que disse - Dilma deve ter jogado para o eleitorado. Qual eleitorado? Os estudantes que, como ela mesma garantiu, seriam mais "atraídos" por um currículo menor? Quais dados a atual presidente tem em mãos para uma afirmação dessas? E de onde ela tira a ideia de que esse "atrativo" vem da supressão da Filosofia e da Sociologia? A candidata tem na gaveta alguma pesquisa que comprove a desimportância do aprendizado nessas duas áreas do conhecimento?

Em todos os setores, as propostas apresentadas pelos candidatos são de um extraordinário vazio e fazem com que a eleição se pareça com a escolha de um gerente de interesses privados, como se o Brasil fosse uma holding ou uma rede de varejo. No caso da Educação, o que todos sugerem - quando sugerem alguma coisa - é desértico. Não há uma única proposta concreta que tenha como objetivo mudanças significativas no setor, que representem sequer um pequeno passo na direção da melhor qualidade na formação dos estudantes em qualquer nível de ensino. 

Essa despreocupação - que reforça o modelo sócio-cultural arrivista e individualista que estamos construindo - me parece ser a que inspirou ontem a fala Dilma. Um descaso que só deve ter servido para alegrar as correntes mais obtusas e obscurantistas da Pedagogia, aquelas que fundamentam o propósito da escola como empresa que oferece formação funcionalista para o mercado. É possível que tenha sido esse o eleitorado que a candidata procurou agradar com o que disse. Se foi esse... Deus nos ajude...

Não temos que esperar muito tempo para observar os resultados disso: ele está aí à vista de todo mundo. Uma Universidade que não tem papel no projeto de desenvolvimento do país e um sistema educacional que liquida toda a perspectiva de formação emancipadora em favor da mercantilização da escola. Se Dilma vier a ser reeleita é bom que ela chame para assessorá-la educadores com mais responsabilidade pública e visão estratégica da importância que a Educação tem na construção de uma sociedade fundada em valores humanistas e livres.
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