sábado, 13 de setembro de 2014

O Banco Central e a paradinha na hora de bater o pênalti

O importante é saber o que nos espera lá no fundo

Essa discussão sobre a autonomia do Banco Central me faz lembrar uma decisão tomada acho que há uns dois ou três anos sobre a paradinha na cobrança do pênalti. Pois eu discutia com um amigo sobre a injustiça que representa o batedor fingindo que vai chutar, não chuta, o goleiro cai para o lado e, com a batida de fato, a bola entra no outro canto. Meu argumento era simples: como a paradinha disfarça o que na verdade são duas cobranças eu concordaria com ela desde que... os goleiros também fossem dois. 

Com o Banco Central acontece a mesma coisa e acho difícil que o Renan Calheiros ou o Francisco Dornelles (o que é que fazem exatamente o sr. Renan Calheiros e o sr. Francisco Dornelles neste país?) consigam entender isto: se é para ter autonomia, então temos que ter duas eleições para presidente: o da República e o do Bacen. A razão é muito simples: como é que a sociedade vai permitir que um cidadão fique 6 anos no comando do organismo que cuida da nossa política monetária - cujos efeitos se estendem por todos os setores da economia do país - sem que ninguém possa escolhê-lo? Qual seria a fonte do poder desse sujeito? Dizem os defensores da medida que uma instância de natureza técnica não precisa de uma fonte política de poder, já que a racionalidade de suas ações explicam-se por si só: são técnicas e ponto final. 

Aí é que está: esse divórcio que a tecnocracia tenta estabelecer com a política - que na discursaria da Marina é vista com simpatia - penso que é o grande risco da autonomia do Banco Central. No aparelho do Estado (seja ele qual for) toda e qualquer instituição deve traduzir uma política de governo pois é no governo que votamos e não nos técnicos.

Não custa lembrar: a crise que explodiu na economia mundial em 2008 e que até agora provoca efeitos negativos internacionais (inclusive no Brasil) teve como uma de suas causas a dificuldade dos governos em obrigar seus bancos centrais a disciplinarem os bancos privados. Não conseguiram e por causa disso a crise continua indefinida, mas de uma coisa ninguém tem dúvida: não fosse a autonomia dos Bancos Centrais e a crise talvez não tivesse ocorrido. Aliás, gostaria muito de ouvir o que um cidadão grego ou um espanhol tem a dizer sobre isso...

A proposta de autonomia do Banco Central é de má-fé e vou adotar em relação e ela a mesma atitude que adotei em relação aos políticos que compareceram à inauguração daquele "templo" do "bispo" Macedo: não voto em nenhum deles. Com o Bacen vai ser a mesma coisa: é a favor da sua autonomia, voto contra...

Em tempo 1: torço para que o Gustavo Franco algum dia compreenda que o Banco Central não é uma agência reguladora.

Em tempo 2: concordo inteiramente com o puxão de orelha que o Clóvis Rossi deu no Lula e na Dilma sobre essa questão e acho muito esclarecedor o texto do blog do Josias a respeito dessa estranha coincidência de opiniões entre os "próceres" de Brasília.

Em tempo 3: disse ontem no twitter que a recusa dos bancos em aceitar a oferta de dinheiro suplementar do governo para ampliar suas linhas de crédito confirma minha suspeita de que os empresários promovem um lockout contra Dilma. Um aluno me escreveu assustado com o termo. O que é lockout? É uma greve de empresários - um tipo de boicote em defesa de interesses privados - o que no Direito brasileiro é considerado ilegal. Por que? Porque ao contrário de uma greve de trabalhadores, uma greve de empresas põe em colapso um setor produtivo com efeitos sociais dramáticos. As formas que isso assume são variadas, mas recusa de capital para ampliar empréstimos que demandariam mais produção de bens e crescimento econômico... isso me parece um lockout.

Em tempo 4 o Estadão deu destaque ontem para um estudo que condiciona a expansão da economia brasileira a reformas (Visão Brasil 2030). É a ladainha de sempre em véspera de eleição: uma recomendação subliminar de voto. O que mais assusta, no entanto, é a envergadura representativa das entidades que bancam o estudo. Algumas delas: Centro de Liderança Pública(?), Movimento Brasil Competitivo(?), McKinsey Global Institute(?). Quanta gente nova no pedaço...

Em tempo 5Empresários reclamam do tom de propaganda petista, diz a Folha. São uns bananas... por que esse muxoxo?
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