sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Cenários

O esplendor da relva (Wordsworth) oculta tensões mais graves do que o bate-bola inconsequente com que a mídia traduz o rumo da economia nacional

Tenho em mãos três matérias que considero importantes para que se entenda o cenário econômico geral sobre o qual o país caminha nessa ressaca pós-eleitoral. A primeira delas é a entrevista que Amir Khair deu ao site IHU. Para o economista - uma das raras vozes que destoam dessa unanimidade plantada em torno dos desafios do próximo mandato - a questão da taxa de juros não é técnica, mas política, isto é, posta como uma decisão de governo, a Selic diz respeito à orientação de maior ou menor relevância do interesse social no assunto - e não ao interesse privado dos especuladores do mercado financeiro. 

Para Khair, "a dificuldade é que há uma crença generalizada, inclusive do próprio governo, de que a Selic controla a inflação. Ou seja, a Selic tem que ser mantida elevada para a inflação ficar reduzida... Trata-se de uma bomba de sucção que é permitida pelo governo, e até é estimulada pelo governo, para satisfazer os bancos privados e os rentistas do Brasil. Com isso, o setor público gasta uns 300 bilhões aproximadamente em juros. (...) É interessante observar que toda vez que o Banco Central eleva a Selic, o mercado financeiro comemora e diz que o Banco Central está fazendo boa política. E toda vez que ele faz o contrário há uma crítica pesada ao Banco Central. Por que? Porque os bancos lucram com a Selic elevada: eles pegam dinheiro a custo zero e aplicam uma parte dele em títulos do governo, ganhando 11% sem risco nenhum".

A segunda matéria diz respeito ao tratamento que os bancos recebem em países onde a bandidagem financeira é controlada com rédeas curtas.

Os Estados Unidos e o Reino Unido acabam de impor aos gigantes financeiros globais, entre eles vários bancos que atuam subsidiariamente na economia brasileira, a fabulosa multa de 3,4 bilhões de dólares pela prática de manipulação das taxas de câmbio com o objetivo de elevar artificialmente seus lucros. A notícia - praticamente ignorada na nossa imprensa - fala sobre a maneira como os organismos reguladores do capital financeiro usam as prerrogativas da autonomia para disciplinar a desordem que desde 2008 está na raíz da crise econômica mundial. 

Por último, a informação de que as montadoras que atuam no Brasil - apesar de todos os privilégios fiscais e creditícios de que gozam, além da orgia da remessa de lucros que fazem periodicamente para suas matrizes - vêm demitindo uma média de mil trabalhadores todos os meses, sem contar aqueles que tiveram a suspensão temporária do contrato de trabalho (lay off) e cuja remuneração, até que voltem às suas funções, é paga pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

Como se vê, o cenário nacional é mais complexo do que os discursos na linha do consenso que pressionam os rumos futuros da economia brasileira. Recentemente, em entrevista que deu à BBC Brasil, o Secretário Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, reconheceu que entre as dificuldades que Dilma enfrentou para se reeleger foi o seu afastamento "dos principais atores na economia e na política". É uma explicação simplória: Dilma pode ter se afastado dos protagonistas que dão sustentação ao projeto original de seu governo, o que recomenda que diversifique as fontes dos discursos que ouve, ou continuará se isolando ainda mais.

Sugiro a leitura: O teto abriga uma embromaçãode Rolf Kuntz (Observatório da Imprensa) e FMI recomenda ao Brasil contas austeras e reformas econômicas (El País)
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